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12 de maio de 2012

Águas Profundas

Undercurrents Book

Há uns dias, por razões insofismáveis, senti a necessidade de procurar informação acerca do minimalismo na música e do uso do drone. Como ainda sou do tempo em que os livros eram respeitados como fonte de sabedoria, desprezei a internet e mergulhei de cabeça em The Eternal Drone: Good vibrations, ancient to future, um ensaio de Marcus Boon presente em Undercurrents: The Hidden Wiring of Modern Music.
É uma obra já com uns aninhos. Data de 2002 e foi editada por Rob Young no seguimento do vigésimo aniversário da Bíblia da música pensante, a revista Wire. Os dez anos entretanto passados não lhe pesaram, pelo contrário, tornaram-na académica e essencial para o estudo das correntes mais radicais e obscuras da música. Constituído por diversos ensaios de vários colaboradores em regime full-time ou part-time da revista britânica, Undercurrents explora os últimos 100 anos em transformações que alteraram o curso das artes sonoras. Desafiante e ousado, seguindo a escola da Wire, este conjunto de dissertações é um autêntico jardim de segredos desvendados, uma mistura do mito e da realidade que fizeram a construção e a destruição da música mais revolucionária do século XX. A minha procura fez-me passar os olhos novamente por ensaios fascinantes e consistentes, como Recording Angels: The esoteric origins of the phonograph de Erik Davis ou On The Mic: How amplification altered the voice for good de Ian Penman. Saciante é igualmente a peça sobre a nova música alemã dos anos 70, escrita por Biba Kopf (The Autobahn Goes On Forever: On the road with Kraftwerk, Neu!, Wim Wenders) e a influência da exploração espacial na música é superlativamente narrada por Ken Hollings em The Solar Myth Approach: Sun Ra, Stockhausen, P-Funk, Hawkwind: the live space ritual.
Undercurrents é, actualmente, leitura obrigatória em muitas universidades onde se professam estudos musicais. O que é obra para uma obra tão fora dos cânones convencionais. Que foi estendida a estudantes quando começou por ser de amantes.

7 de junho de 2011

Fina Flor


O aspecto mais interessante da seminal revista Wire é a sua incompletude. Esta publicação britânica, a mais importante fonte de divulgação da música realmente nova, nunca se instalou no trono das verdades absolutas. A operar desde 1982, a Wire mantém-se eternamente jovem, constantemente deslumbrada com a originalidade e inovação das novas gerações de artistas que tem visto despontar.
The Wire Primers é um excelente livro editado sob a chancela da revista (e de selecções do seu regular colaborador Rob Young) e baseado numa rubrica inconstante da mesma. A temática destes Primers assenta na selecção e discussão de determinados estilos musicais, das suas obras e personagens de referência. É um óptimo guia na imensa espeleologia das cavernas musicais, principalmente as mais profundas. O livro propriamente dito faz um resumo do melhor e do mais importante editado nesta secção, subdividindo-se em quatro partes distintas: Avant Rock, Funk, Hiphop & Beyond, Jazz & Improvisation e Modern Composition. Cada um destes assuntos delicados é entregue à pena de variados escribas, mas o estilo mantém-se sempre uniforme e, especialmente, apelativo. Pela importância e pela capacidade de injectar vitalidade em áreas tradicionalmente rebuscadas, merecem destaque os capítulos sobre Captain Beefheart, Frank Zappa e Sonic Youth. Outros, como os dedicados a John Cage ou à cena Noise, são mais académicos e menos apaixonados, mas mesmo assim dão vontade de investigar.
Escusado será dizer que este livro é feito à medida dos seguidores da Wire, acarinhando com especial ternura os estilos e artistas que mais tem ajudado a divulgar ao longo dos últimos 30 anos. Foi publicitado como um complemento ao monumental The Rest is Noise de Alex Ross, mas não alcança o estatuto de clássico dessa importantíssima obra. The Wire Primers é, em suma, uma referência incompleta. Um estudo que indica caminhos, irradia influências e impele ele próprio a estudar. Filho de peixe sabe nadar.