Já passou mais de um ano desde o falecimento de Captain Beefheart. Mais um motivo para recordar um imortal. The Artist Formerly Known As Captain Beefheart é um pequeno mas belíssimo documentário que traça o percurso de Don Van Vliet desde o despontar musical até ao ocaso dos palcos e dos discos para abraçar de vez a pintura. O amigo de infância e errante companheiro de percurso Frank Zappa foi um dos ilustres participantes, assim como vários intervenientes da estrondosa Magic Band. Outro imortal ficou encarregue da narração: John Peel, o melhor arauto de sempre das boas novas musicais. Now, let's get booglarized again!
Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams são tidos como os pontos mais baixos da obra de Captain Beefheart. Erros de percurso em que o experimentalismo cedeu ao comercialismo, em que os fãs antigos se sentiram defraudados e em que os fãs novos... bem, quais fãs novos?
Ambos estes discos de 1974 quase arruinavam a reputação de Don Van Vliet ao mesmo tempo que não lhe permitiram transpor o portal que dá acesso aosucesso massificado(se era mesmo isso o pretendido). A emblemática Magic Band, que o acompanhava desde os primórdios, chegou a ser apelidada Tragic Band. Beefheart portava-se quase normalmente na televisão (ver vídeo no final). Que aberrações eram estas!?
Hoje, quase 40 anos passados da sua edição, será que estas obras continuam a ser malditas? O Escrito no Som, imbuído do seu espírito de harmonia e apaziguamento, coloca-os na mesa de operações.
Para começar, Unconditionally Guaranteed mostra na capa Captain Beefheart agarrado a um maço de dólares. Das duas uma: ou este gesto faz parte da sua ironia habitual, ostentando que fez um disco somente pelo dinheiro, ou então fez mesmo um disco somente pelo dinheiro. Outra coisa é o facto de Beefheart estar, por estes dias, apaixonado e recém-casado com a senhora Jan Van Vliet. Em circunstâncias normais, isto é motivo de júbilo. Para um artista como este, é um pesadelo. Ouvir o homem que criou uma das obras musicais mais surrealistas e abismais do século XX (Trout Mask Replica, obviamente) a cantar algo como Happy Love Song é como beber óleo de fígado de bacalhau puro. Por entre a tepidez geral e constante, há algumas canções que sobressaem e se insinuam num estranho chove não molha. This is the Day e Magic Be são pérolas incaracterísticas. Certamente seriam apreciadas noutro personagem que não Captain Beefheart, o que suscita o interessante debate de como os artistas ficam involuntariamente presos aos rótulos - sejam eles bons ou maus. I Got Love on my Mind é um blues-rock enérgico, mas que nunca infringe a lei. Apenas Upon the My-O-My traz ténues reminiscências do passado mais experimental e transgressor. Os restantes temas enchem chouriços na perfeição. A frase 100% Pure and Gold, inscrita na capa do álbum,só pode gozar literalmente com o ouvinte. 25% seria a percentagem correcta.
Bluejeans & Moonbeams começa melhor que o seu predecessor. Party of Special Things to Do avança com algum do veneno vocal e rítmico que os beefheartianos tanto adoram. Logo a seguir, o tratamento dado a Same Old Blues supera o original de J.J. Cale. Não profana os blues tanto como seria desejável, mas mantém a decência. E eis que surge Observatory Crest para salvar em definitivo a honra do convento. Nos meandros da atmosfera ofuscante, de um estio abrasador, palpita um psicadelismo puro e acessível que não se conhecia no Capitão desde Safe as Milk. Infelizmente, o combóio descarrila a partir daqui. Nenhuma das peças seguintes supera o que ficou para trás e somente Further Than We've Gone e o tema-título conseguem deixar algo de memorável. Nem que seja pela impressão que esta encarnação da Magic Band está a emular o rock progressivo ou as paisagens mais açucaradas da música dos anos 70. Em mais nenhuma fase de Beefheart se conseguem escutar solos de guitarra planantes ou teclados com priapismo...
Até hoje, é difícil descortinar se Don Van Vliet agiu deliberadamente na criação destes dois registos ou se foi coagido para tal. Há quem culpe a falta de carisma da banda ou o facilitismo na produção de Andy DiMartino. Certo é que não se ouviu falar em Captain Beefheart nos quatro anos que se seguiram. Mas a fera que parecia dopada e à beira de cair no abismo do mainstream regressaria para nos presentear com mais três discos até à sua retirada final em 1982. Três discos à (sua) moda antiga, desafiantes, intrigantes, imprescindíveis.
Mesmo assim, não existem razões para obliterar totalmente Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams. Com a mediocridade criativa facilmente audível que prolifera por aí, é provável que alguns músicos doassem um rim para os fazer. Aqui foram a excelência previamente alcançada e a fasquia muito alta que tramaram Don Van Vliet. Voltar a estes discos de quando em vez não provoca micoses. Mas que nunca sejam glorificados.Isso seria como ver-me a festejar um golo do FC Porto, ou a comer sardinhas assadas com Coca-Cola. Nunca se sabe se poderá vir a acontecer, mas é extremamente improvável...
A influência de Captain Beefheart, alter ego de Don Van Vliet, espraia-se tentacularmente pela música moderna. De Tom Waits a PJ Harvey, passando pelos Pere Ubu ou pelos belgas dEUS, uma miríade de artistas de considerada relevância na actualidade foi beber a esta fonte. Não faltam obras-primas na sua discografia, toda ela assente na desconstrução e reinvenção dos blues mais primários, oriundos do delta do Mississippi, combinada com melodias cromáticas, ritmos estranhos e descompassados e letras a roçar o surrealismo. Em suma, música em estado selvagem. A sobrepôr-se a tudo isto, a voz única de Beefheart, impressionante e reminiscente do grunhido negro dos bluesmen mais remotos. Álbuns de referência como Safe As Milk ou o genial e inimitável Trout Mask Replica são imprescindíveis em qualquer discografia digna desse nome. Ice Cream For Crow foi o último álbum de Captain Beefheart, acompanhado, como na esmagadora maioria das vezes, pelos seus acólitos The Magic Band. Datado do já longínquo ano de 1982, não tem comparação possível com nada lançado nesse período e solidifica ainda mais a imagem de Don Van Vliet como ícone irrepetível e insubstituível, sempre um solavanco na modorra do trajecto. Depois deste disco, veio a reclusão no Mojave, a dedicação em exclusivo à pintura e, sem certezas absolutas, a esclerose múltipla. O que é certo é que este homem faz muita falta... Vale a pena visitar a parcela do seu mundo patente em http://www.beefheart.com/; vale a pena recordar a sua imagem sempre peculiar no seguinte vídeo, que consta ter sido banido da certinha e previsível MTV aquando da sua divulgação por ser demasiado bizarro...