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11 de maio de 2012

Blue Bell

Every night I tell myself / I am the Cosmos / I am the Wind. Assim arranca uma das canções mais desamparadas de sempre. I am the Cosmos foi a única canção que Chris Bell viu lançada em vida. Um single de 1978 que, não satisfeito pela devastadora demonstração do lado A, apresenta no lado B a canção de amor perfeita: You and Your Sister.
Após partidas e regressos do meio musical, Bell começava a ser notado e reconhecido. Meses depois, o carro que conduzia embateu numa árvore a meio da noite, o homem terminou e começou a lenda.
Chris Bell foi um dos fundadores dos Big Star, mas abandonou o grupo deprimido pela fraca atenção consagrada ao seu álbum de estreia (dizem as más-línguas que o verdadeiro motivo da sua partida foi a maior preponderância que o mais extrovertido Alex Chilton conquistou no seio da banda...). Vagueou pelos Estados Unidos e pela Europa, tocou maioritariamente em bares e deixou um módico rasto de canções gravadas, algumas em conjunto com os seus ex-comparsas dos Big Star. Lutou contra a rejeição das editoras e morreu quando começou a sentir o primeiro lampejo de verdadeiro reconhecimento. Life's a bitch é a única coisa que apraz dizer...
Após anos, as poeirentas maquetes de Chris Bell foram resgatadas. 1992 (2009 em versão deluxe) assistiu ao lançamento do álbum I am the Cosmos, muito graças ao projecto da 4AD This Mortal Coil, cujo álbum Blood, de 1991, incluiu versões deste excepcional tema e do igualmente belíssimo You and Your Sister. Mas o disco vai muito para além destes dois clássicos. É um composto de baladas infecciosas e atormentadas e de temas na veia mais power pop dos Big Star. Consta que Bell era homossexual e que vivia em constante culpa e repressão dos seus instintos. Para além disso, era um depressivo crónico, que se refugiava na heroína e tentava libertar-se de tudo isto através de uma fé cristã acentuada. Uma mente em profundo e permanente desassossego. Better Save Yourself e Look Up reflectem essa espiritualidade quase irracional, duas lindíssimas canções ornadas de dor e desejo de redenção. There was a Light e a obra-prima Speed of Sound são punhaladas de amor, rasgando as entranhas com paradoxal melodia. A lacrimejante Though I Know She Lies arrasa de vez com qualquer coração despeitado. Quem nunca se fechou num quarto escuro a chorar por amor? Eis a banda-sonora perfeita...
Noutro contexto, os temas mais eléctricos (Get AwayI Got Kinda LostI don't Know) descendem em linha directa dos Big Star, especialmente da fase Radio City. Chegam para animar as hostes, são melódicos, directos e robustos, mas não atiram bóia de salvação para os temas mais sofridos e dramáticos de I am the Cosmos. São eles que nos arrastam nesta corrente e nos afogam nas águas turvas da arte turbulenta mas delicada de Chris Bell.

Por triste coincidência, escrevo estas linhas no dia em que perdemos um dos maiores músicos portugueses de sempre, que eu muito admirava e com quem cheguei a trocar umas palavras no velhinho Hot Clube: Bernardo Sassetti. Demasiado cedo e absurdamente. Só lhe posso, humildemente, dedicar este texto.

9 de maio de 2012

Estrela Cadente

Os Big Star ergueram-se, altaneiros, em 1972 com um magistral álbum de estreia. #1 Record era uma Bíblia de pop rock perfeito. Pleno de composições em estado de graça, de melodias doces mas poderosas e comandado pela voz imaculada de Alex Chilton, o disco estava talhado para o sucesso. Mas os Big Star caíram da sua torre mal estruturada. Reagiram à fraca atenção dispensada a uma obra que continha, entre outros, tesouros como Thirteen e The Ballad of El Goodo, reerguendo-se com Radio City. Este regresso, datado de 1974, é considerado hoje um clássico de um género pouco resiliente: o power pop. Foi igualmente laureado pela crítica e está igualmente cheio de excelentes canções (September Gurls, O My Soul, You Get What You Deserve...). Poucos tornaram a ouvir e a estrela voltou a cair.
Reduzidos ao duo Alex Chilton / Jody Stephens, os Big Star entraram em implosão. Reuniram-se em estúdio ainda em 1974 para gravar um novo disco, mas as sessões ficaram para sempre assombradas por infernos pessoais, abuso de substâncias e uma espiral de loucura generalizada. Third, paralelamente conhecido como Sister Lovers, acabou por ver a luz do dia somente em 1978, mas a versão editada em 1992 é considerada a definitiva. É sobre esta que falo hoje.
Third / Sister Lovers é um dos discos mais destroçados, penosos e, em última instância, deprimentes de sempre. É música vagabunda, largada na noite escura para nunca mais voltar a casa. E o mais estranho é que ela própria se alimenta deste romantismo trágico e não quer voltar a porto seguro. Há um monte de músicos de sessão a tocar no disco, mas nem uma orquestra nos píncaros da afinação consegue ludibriar a desolação latente e a auto-sabotagem com que o terrorista Alex Chilton mina as suas próprias criações. Se Pigmalião se apaixonou pela estátua que esculpiu, Chilton parece querer destruir tudo aquilo que compôs. Kizza Me, Jesus Christ e Thank You Friends são o que mais se aproxima dos antigos Big Star. Mas a última, especialmente, é exemplificativa do sarcasmo amargo que brota dos temas mais luminosos.
O mergulho no abismo começa no torpor narcótico de Big Black Car, que tanto pode ser a alegoria de um músico de sucesso transportado na sua limousine como a de um morto transportado num carro funerário e que finalmente encontrou a paz. Sucede-se um ror de temas quase pornográficos na forma como expõem uma alma espancada e ferida de morte. O fantasma demencial de Holocaust nunca deixará de nos acossar nos momentos em que precisamos de algo mais triste que nós. O doce pesadelo de Kangaroo é o trauma de amor que correu mal na nossa adolescência e não mais se dissipou (anos mais tarde foi o primeiro single do projecto This Mortal Coil, que lhe subtraiu desespero e adicionou romantismo). Nightime é a balada de uma relação atormentada. E Take Care, o último tema, aloja-se no nosso coração e derrete qualquer gelo que lá esteja incrustado. Uma canção tão bela quanto frágil, que soa à despedida de alguém que não queremos ver fugir. Inconstante e volátil como é expectável, a edição definitiva de Third / Sister Lovers conta com um total de 18 temas. Por entre originais e versões, a luz e as trevas, fica para sempre o génio mortificado de Alex Chilton, homem com os anjos na voz mas o Diabo no corpo, cuja errática carreira a solo foi sempre reflexo da entrada neste labirinto sem saída. Chilton faleceu em 2010. A sua voz é tão eterna como os anjos.