Numa altura em que a discografia dos Cocteau Twins está a ser alvo de reedição, nada como recuperar igualmente a história visual desta extraordinária banda. Uma história impactante, cromática e luxuriante que ajudou a elevar os britânicos ao panteão das melhores ocorrências musicais dos anos 80. Mesmo sendo esse período limitado no tempo que os viu crescer e brilhar, a arte dos Cocteau Twins não perdeu pitada do seu encanto desde então. Aliás, a sua magia é tão transcendente que não tem era definida. É banda-sonora de sonhos despertos, farrapo de paraíso derramado sobre o afortunado ouvinte.
Tishbites, compilação videográfica de 2004, congrega alguns dos momentos marcantes do percurso do grupo. Clips que, antes de tudo, são pequenas filigranas fílmicas que procuram dar imagem ao onirismo latente da música. Som e imagem em conchavo, num processo evolutivo que resulta em elegância garrida, quase psicadélica.
Em complemento aos vídeos para doze singles e da pequena peça Rilkean Dreams, Tishbites homenageia isoladamente a grande figura do colectivo, Elizabeth Fraser, através de dois clássicos modernos que a sua voz única aprimorou: Song to the Siren, original de Tim Buckley imortalizado pelo projecto This Mortal Coil e Teardrop dos Massive Attack. Motivos de sobra para uma espreitadela obrigatória...
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24 de agosto de 2012
12 de junho de 2012
Erário Etéreo
Em 1984, por entre dejectos e eflúvios de música pastilha elástica, foi enterrado um tesouro. Ao terceiro álbum, os Cocteau Twins (agora expandidos a trio com a inclusão do baixista Simon Raymonde) roubaram um pedaço de céu para nos oferecer. Garlands, o primeiro álbum, foi um produto de influências, um disco escuro e denso, esforçado mas sem conseguir afastar os fantasmas ominosos de Siouxsie & The Banshees ou dos Cure da época. Um ano depois, em 1983, chega Head Over Heels, obra que oscila entre a filigrana e o tonitruante. Começa a ser impossível acreditar que a voz de Elisabeth Fraser é real e a guitarra de Robin Guthrie embala-nos pela bruma montados em algodão doce. Começa a ser incubada alguma da música mais bela que este planeta já ouviu. Mas é o mesmérico Treasure que arrebata em definitivo. Simon Raymonde prova ser um elemento catalisador na expansão onírica do som dos Cocteau Twins. Caímos, deliciosamente prostrados, em levitantes e envolventes lençóis de som. As ambiências, etéreas e irreais, penetram com delicadeza as áreas de prazer do nosso cérebro. Ainda perdura algum do rigor gótico, das atmosferas austeras que encetaram um saudável concubinato com a luz e a cor na fabulosa série de EP's que antecede Treasure (Sunburst and Snowblind, Pearly-Dewdrops' Drops, The Spanglemaker). Beatrix e Persephone são exemplos dessa junção, doces melodias cobertas de nuvens negras, arcaísmos futuristas. Lorelei é a pop perfeita do mundo dos anjos, com Liz Fraser nos píncaros das acrobacias espectrais da sua voz. Não é à toa que um extasiado crítico britânico chegou a apelidá-la "the voice of God"...Todas as canções têm nomes de pessoas, como se fossem elas o verdadeiro tesouro, e cada uma a sua própria individualidade. A viagem pelo sonho atravessa diferentes territórios, do mutismo minimal de Otterley ao rebentamento das ondas cintilantes de Donimo. Robin Guthrie transforma a guitarra numa varinha de condão, distorcendo-a e adornando-a de efeitos espantosos. Não importa a técnica, apenas a sensação inflingida. Aloysius, Cicely, Ivo (esta última dedicada ao patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell), todas são pequenas delícias num jardim edénico. E o auge acontece em Pandora, onde a beatitude sonial entra em simbiose com a sensualidade carnal, numa peça sublime que tanto pode ser veículo de paixão como de meditação. Não percebemos patavina do que Fraser está a cantar, mas isso é de somenos importância. Treasure é um disco do coração e não da razão, a mais equilibrada e perfeita prova das capacidades dos Cocteau Twins. Com tantos discos a roçar a perfeição, é discutível se esta é ou não a obra-prima da banda britânica. Foi a primeira que ouvi e continua a ser a minha preferida. O resto é como discutir o sexo dos anjos...
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