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30 de janeiro de 2011

A Persistência da Memória

O fenómeno rotulado de Hypnagogic Pop parece estar longe de se esgotar. Já dissecado neste espaço há alguns meses, parece manter uma inesperada relevância na cultura alternativa. A própria revista online Pitchfork, uma das mais influentes e interessantes publicações musicais do presente, criou um site paralelo que, praticamente, investe tudo neste movimento. Denomina-se Altered Zones e está pejado de imagética retro, referências culturais kitsch dos anos 80 - da música à ficção científica - e de projectos que dão os primeiros passos dentro de um género tão experimental e underground como estranhamente familiar. Parecem terem voltado as edições em cassette e CD-R, repletas de sons saídos do subconsciente como esqueletos coloridos do armário. A maioria desses projectos assenta num regime forçado DIY, é charmosamente artesanal e é tão futurista que parece termos chegado ao século XXV de Buck Rogers e à sua verdadeira banda-sonora original. Esta influência primitiva, ou o uso de estéticas e de ferramentas do passado para desenhar a música do futuro, tem-se espalhado por vários géneros, sendo que a música electrónica e o hip-hop são as mais contaminadas neste momento. Vale a pena estar atento a projectos como Stellar Om Source, Innercity ou Hype Williams, pois nunca se sabe se uma parte do devir não estará nas suas mãos embrionárias... Entretanto, nunca é demais relembrar dois actos que transitam directamente do sonho diurno hipnagógico e que editaram dois dos melhores discos de 2010: Os Rangers e a sua sonoridade algures entre o cinzentismo suburbano e a luminosidade do mainstream dos anos 80 e o regresso aos paraísos estivais da adolescência de Ariel Pink's Haunted Graffiti. Recordar é viver, já dizia Vítor Espadinha, um possível alvo de samplagem numa possível hipnagogia lusa..



19 de junho de 2010

Hipnagogias

Quem, como é o meu caso, anda pela casa dos trinta, terá, certamente, recordações vívidas e saudosas dos anos 80. É muito provável que se lembre do campeonato do mundo de futebol de Espanha, em 1982, que será sempre melhor que todos os que se seguiram; da série Verão Azul; de Margaret Thatcher e do cubo de Rubik; do italo-disco e outros case studies musicais barricados nesse nicho temporal. Quem anda hoje pela casa dos vinte terá somente remotas e primárias reminiscências dessa década. Memórias arcaicas, visões distorcidas, pouco coerentes e nada abrangentes.
Decorreram já uns bons meses desde que a (im)popular revista Wire lançou um artigo onde se debruçava sobre um novo e estranho fenómeno musical. Baptizou-o de Hypnagogic Pop. O rótulo vale o que vale, mas faz algum sentido. A hipnagogia é um estado de consciência alterado, que ocorre na transição entre a vigília física dita normal e o sono natural. Durante a permanência neste limbo, a mente humana é capaz de apreender informação, mas nunca no seu todo. O som específico de uma palavra numa frase, o eco isolado do fragmento de uma melodia, será isso que ficará registado. A memória fará o resto anulando a maior parte desses dados na sua base. Mas o que acontece se esses dados insistirem em permanecer? Aí tornar-se-ão parte de nós, transformando-se igualmente em recordações, mas imperfeitas, inacabadas, pois o cérebro não as captou em total estado de vigília.
São estes fragmentos evocativos que constróem o cerne da pop hipnagógica. Peças soltas, melodias amputadas, o todo diferente da soma das partes. Música composta a partir de samples sensoriais, captados isoladamente com 2 ou 3 anos de idade, sem se perceber o que eram na realidade. Neste sentido, êxitos orelhudos e demodé dos anos 80, passam a ser fonte de inspiração para criações artísticas. Como se o resquício de memória da primeira infância ficasse completo sendo actualizado à luz da realidade de agora. Como se recuperassem memórias de memórias. Nomes como James Ferraro (e seus desdobramentos criativos), Nite Jewel, Gary War ou Pocahaunted editam gravações em cassette e lançam sucessivas obras em CD-R. Peças urgentes ou arrastadas, estáticas e oníricas, são injectadas com partículas de qualquer êxito esquecido do Verão de 1984. O que era foleiro passa a ser inspirador. Bizarro, surreal, mas que compele estranhamente à escuta e que acaba por revelar capacidades alucinogéneas e confontar-nos com as nossas próprias memórias. Outros actos, como o belíssimo projecto Oneohtrix Point Never, Emeralds ou Ducktails centram-se em atmosferas mais ambientais, referências à electrónica alemã mais cósmica e até reabilitações futuristas da maldita New Age. Em todos está samplada a memória, o que foi filtrado antes de adormecer e ficou para sempre acordado neles, bom ou mau.
Para além da alucinação auditiva, os praticantes desta retro futurista sonoridade têm levado a cabo surreais criações visuais, especialmente no YouTube, muitas delas fascinantes. Tal como o som, também as imagens que povoam os vídeos são oníricas, espicaçando o inconsciente de cores garridas e através de formas sem conteúdo. Quase que se poderia falar numa recriação psicadélica dos anos 80, expressão que tem tanto de contraditório como de potencialidade. No caso a seguir, veja-se como Daniel Lopatin (timoneiro do projecto Oneohtrix Point Never) consegue induzir a evocação hipnagógica, bastando para isso samplar um brevíssimo excerto de Lady in Red de Chris de Burgh, associando-o a qualquer efeito televisivo state of the art gravado em Betamax há 25 anos. Os comentários de quem assistiu dizem tudo...