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30 de janeiro de 2012

Kosmische Kosmetik XXXII

O berlinense Zodiak Free Arts Lab foi um dos míticos locais em que a música alemã inflectiu para a pós-modernidade. A atmosfera de psicadelismo underground impregnava as paredes e o espaço encontrava-se pejado de instrumentos para livre utilização dos frequentadores. O experimentalismo e o improviso eram fomentados e a casa serviu de rampa de lançamento para muitos nomes incontornáveis do krautrock, tais como Ash Ra Tempel, Agitation Free e, acima de tudo, Tangerine Dream.
Para além do futuro Cluster Hans-Joachim Roedelius, o recentemente malogrado Conrad Schnitzler foi um dos fundadores do Zodiak. Juntamente com Wolfgang Seidel e o engenheiro de som Klaus Freudigmann, Schnitzler formou os embrionários Eruption, plantando, em 1970, uma das sementes mais obscuras e radicais da kosmische musik e que veria a luz do dia somente em 2006.
Eruption é construído nas ruínas de uma Alemanha devastada pela guerra e dominado por ambiências industriais e pós-apocalípticas. A expansividade cósmica que Schnitzler conseguiu pela mesma altura em Electronic Meditation, o primeiro álbum dos Tangerine Dream, é aqui substituída pelo caos controlado do experimentalismo licencioso. O som é inóspito e agressivo, investindo como uma nuvem negra carregada de ecos e distorções, ritmos despedaçados, borrascas de guitarra, violino espectral e vozes inumanas.
Os sete temas que compõem o disco não possuem nome próprio e são indivisíveis do todo desta equação sonora. Um longo e frio manto cinzento cobre o ouvinte, como uma viagem em primeira classe pela desolação. Ao invés das flutuantes e hipnóticas sagas cósmicas do futuro, foram a electrónica punk e arquitectura industrial que começaram a ser desenhadas aqui. Lambidas as feridas, o espaço seria a fronteira final para a sublimação...

30 de julho de 2011

Kosmische Kosmetik XXVII

Conrad Schnitzler tem 74 anos de idade e quase o dobro de discos editados. Este alemão de Düsseldorf, desconhecido para muitos, é um dos maiores pioneiros da música electrónica. Membro da primeira formação dos Tangerine Dream e co-fundador dos Kluster (que trocariam o K pelo C após a sua saída), Schnitzler foi igualmente o mentor do breve projecto Eruption, que duraria o tempo suficiente para gerar um único álbum. Enquanto os Eruption seriam uma alavanca para o movimento krautrock, esse único registo - homónimo - apenas veria a luz do dia em 2006, mais de 30 anos após a sua criação.
Muito viveu e produziu Conrad Schnitzler entretanto. A sua quase infinita discografia necessita de uma hercúlea dedicação para ser desbravada por inteiro. A trajectória do músico parece ser circular desde os primeiros tempos da sua carreira a solo. Começando por assentar em edições exclusivamente em cassette, até aos dias de hoje, em que perduram as concepções caseiras e disseminadas em CD-R, Herr Schnitzler conviveu pouco tempo com a visibilidade mediática. Talvez o excelente Ballet Statique, de 1978, seja visto hoje como a sua obra mais abrangente e influente, um dos melhores discos de electrónica já criados e uma bússola para muitos artífices e seguidores do clássico, frio e minimal som germânico. Cinco anos antes, porém, surgia outro mastodonte robótico pela mão do catedrático. Longe, muito longe, das atmosferas mais acessíveis presentes nos seus discos de finais de 70 e princípios de 80, a aventura chama-se Zug.
A história de Zug escreve-se em dois temas apenas, ou, como nestes tempos havia dois lados nas construções musicais, numa peça partida em dois: Spur e Rhythmus. Causa e consequência. Desde o início somos colocados numa locomotiva desgovernada, que avança irredutivelmente, mas sem nunca sair dos carris. Uma vertigem sonora, que não pára em estações nem apeadeiros e que tanto nos pede para mover o corpo às suas investidas, como nos titila a massa encefálica para continuar a ouvir, para saber onde a viagem nos leva. O ritmo pica como esporas, impedindo a atenção de ser desviada, mesmo sendo minimal e repetitivo. Lá atrás sucedem-se sibilares mecânicos, metálicos, metamorfoses subtis que acrescentam tonalidades cinzentas ao preto e branco dominante. Em Trans-Europe Express dos Kraftwerk, sentimo-nos igualmente transportados, mas como passageiros enamorados pelo Velho Continente. Zug é mais actual, parece arrastar-nos para uma fuga, não nos deixa olhar a paisagem, não nos deixa reter o momento. É movimento puro, o que acontecerá daqui a um minuto poderá ser exactamente o que aconteceu há um minuto atrás. Abruptamente, como se entrasse num túnel perpétuo, o movimento desvanece-se. Passaram perto de 40 minutos. De quê?
Em 2010, o disco foi reeditado tendo como base reconstruções da peça original. Provavelmente para dar continuidade, um fim, ou um sentido a uma obra tão vaga e misteriosa mas que ajudou a construir o futuro. O primeiro disco de trance music de sempre? O motor de arranque do techno inteligente? Nada disso, mas muito mais que isso...