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1 de dezembro de 2017

Aqui d'El Jazz

Related imageO flautista e compositor Bob Downes assumiu-se como uma das figuras mais criativas e inovadoras da cena jazz britânica, projectando a sua sombra numa miríade de contribuições em variados estilos contaminados por este género, que vão da música clássica contemporânea ao rock e à livre improvisação.
O artista de Plymouth foi um dos nomes sonantes e indissociáveis da revolução jazzística ocorrida na Europa nos finais dos anos 60 e que emancipou em definitivo o Velho Continente de décadas de influência e domínio norte-americanos.
Bob Downes participou como músico de estúdio em inúmeras obras seminais gravadas durante esse período dourado. As suas actividades foram, amiúde, executadas sob a égide da baptizada  Open Music, entidade transmutável de trio a big band e que, como a denominação sugere, se encontrava livre de quaisquer restrições ou amarras estilísticas.
Após gravar algumas obras para editoras mais voltadas para o mainstream, Downes arriscou a criação da sua própria editora, chamada Openian Records, na qual principiou o lançamento dos seus projectos, sendo um dos primeiros músicos deste período a avançar com tal empreitada. O álbum de 1970 intitulado Electric City, trabalho curioso, bizarro e, a espaços, genial, apresenta o compositor como um artífice do jazz rock, criando peças curtas, carregadas de energia e ornadas por arranjos intrincados.
A lista dos músicos participantes neste festim é capaz de fazer salivar os amantes do género à época, apresentando sumidades como os trompetistas Ian Carr e Kenny Wheeler, o baixista Harry Miller e o prodigioso guitarrista Chris Spedding. A música é constantemente brilhante e cativante, sugerindo um bulício urbano e nocturno, e as performances virtuosas constituem amplas expressões das várias correntes sonoras que circulam sem restrições pelo disco. Grooves rechonchudos como Crush Hour, inflexões abrasivas pelo rhythm'n'blues como Walking e frescos cinemáticos como o fantástico Dawn Until Dawn são exemplos flagrantes da versatilidade e ecletismo de Electric City. O ritmo quente e propulsante de  Keep of the Glass não destoaria de uma película blaxploitation. Gonna Take a Journey termina o álbum atirando todos os elementos para um caldeirão, enaltecendo um fundo free jazz sem freios com motivos vocais - coisa rara e estranha neste tipo de obras.
Bob Downes continuaria a criar música interessante e continuamente diferente, mas nunca nada similar a esta pérola frenética, a qual continua a ser uma porta de entrada perfeita para o seu mundo singular e um pequeno objecto sónico não-identificado no jazz disruptivo que despontou na Inglaterra e na Europa nas décadas de 60 e 70.

25 de fevereiro de 2017

Paz e Ruído

No dia 13 de Agosto de 1969 em Paris, o pianista Dave Burrell reuniu-se com alguma da fina flor do jazz da época para registar duas composições da sua autoria. Os seus companheiros de aventura foram Archie Shepp (saxofone tenor), Arthur Jones (saxofone alto), Clifford Thornton (corneta), Grachan Moncur III (trombone), Alan Silva (contrabaixo) e Sunny Murray (bateria). O resultado é uma das obras mais extremas - senão a mais extrema - do jazz improvisado.
Ainda hoje é quase impossível resistir ao choque perante a audição dos primeiros segundos de Echo, a primeira das duas peças que compõem o disco com o mesmo título. Uma amálgama sonora desmorona-se subitamente sobre o ouvinte, numa cacofonia em que todos os instrumentos irrompem num turbilhão sem tréguas. Como se d' A Cavalgada das Valquírias em versão free jazz se tratasse. De acordo com Burrell, o princípio que rege este tema assenta em duas notas amplificadas e repetidas até à exaustão. Segundo o pianista, esta seria uma forma dos músicos descobrirem um grande número de coisas acerca dessas duas notas, bem como deles próprios. Certo é que, se os primeiros momentos do tema parecem querer repelir o ouvinte, com o passar dos minutos a música torna-se um monolito denso e entorpecente. Um redemoinho incessante, de onde irrompem gritos isolados dos vários instrumentos por entre a espiral que os afoga. Tremenda, intensa e imprópria para cardíacos, Echo é uma peça que exige uma aproximação cuidadosa e uma disponibilidade sem preconceitos por parte de quem busca os seus tormentos/encantos.
A segunda composição do disco, Peace, principia de forma mais plácida que a sua antecessora, mas não menos incisiva. Uma dissonante exploração de solfejo desagua num exercício de puro e abandónico improviso. Nas palavras de Dave Burrell, este tema explora a politonalidade, via acordes e arpejos, como um trampolim para alcançar a serenidade. Poucas vezes o jazz foi tão avant-garde como aqui e muitas vezes o jazz dos anos vindouros emulou a sua atmosfera esquizofrénica. A inquieta tranquilidade de Peace convida a meditações despertas e abstracções concretas. Um oxímoro musical, bizarramente gratificante.
Echo acaba por ser um produto típico da era dourada do free jazz. Contudo, poucas vezes alguém conseguiu ir tão longe nos seus intentos como Dave Burrell e seus co-conspiradores neste hiperactivo borrão sonoro. Continua a ser difícil de ouvir. Continua a não ser para todos. Continua a ser lendário.

28 de dezembro de 2014

Big Ben


O colectivo Ben foi mais uma das curiosidades jazz rock inglesas a despontar no início dos anos 70. Nitidamente influenciado pelos nomes de topo da época neste género, nomeadamente os Soft Machine e os Nucleus, o quinteto liderado pelo mestre dos sopros Peter Davey acaba por vincar a sua personalidade graças a uma abordagem mais solta, quente e, em última instância, americana que a chama controlada e fleumática característica dos seus pares.
Ben, o único registo conhecido da banda, data de 1971. Ainda hoje sabe a raridade. É um disco algo directo e pouco maquinal, tendo em conta as ambições por vezes hiperbólicas da música da época. Pelas rachas das suas paredes parece entrar a luz dos Return to Forever ou do Miles Davis em plena fase de promiscuidade com a electricidade.
A temática central das quatro peças que compõem o álbum remete-nos para o crescimento espiritual, da infância até à morte. Matéria mística, à qual os Ben dão um tratamento terreno logo a partir do primeiro tema, The Influence. Dividido em sete partes, dá saltos e piruetas, engalfinha flauta com piano eléctrico e desbobina saxofone enérgico, sem perder o fio à meada. Segue-se Gibbon, sem dúvida o ponto alto do disco. Sobre cama de valsa são servidas doses generosas de piano eléctrico entremeado com saxofone fumegante, sendo o ritmo entrecortado por cascatas quebradiças de energia.
Christmas Execution é uma peça de rico rigor formal, tão fora de tudo como tudo o que está dentro deste disco. Valha-nos sempre a execução irrepreensível, mesmo não sabendo para onde ela vai. Gismo prossegue a senda errática e encerra o registo por entre as abstracções vocais derivadas de Robert Wyatt nos Soft Machine e os devaneios desagregados dos solistas em acção.
Em última instância, a única obra dos Ben é um objecto inacabado, impulsivo. Não obstante, acaba por ser incomparável, dado o estatuto de filho único. À falta de herdeiros, celebremo-lo como pequena bizarria, esquiva mas sedutora.

Orquestra do Caos e da Beleza

Tudo aconteceu em 1971. A estranha orquestra que ficou imortalizada como Centipede foi idealizada por Keith Tippett, pianista e uma das figuras de proa do novo jazz britânico. Para a criação e execução do irrepetível épico Septober Energy, Tippett agregou à sua volta 54 músicos, a crème de la crème da cena jazz e do rock progressivo de terras de Sua Majestade.
O propósito do projecto é insondável, mas tudo leva a crer que o seu móbil envolvia a liberdade artística total. Septober Energy é uma obra que desafia interpretações. Parece cozinhado ao momento, mas revela camadas de complexa inspiração. Soa esquelético umas vezes, bombástico outras, mas nunca menos que ambicioso.
O improviso é déspota ao longo das quatro partes (movimentos) de Septober Energy, sendo maioritariamente no jazz que se encontra ancorado. Nomes máximos da vanguarda inglesa do género, como Robert Wyatt e Elton Dean (dos Soft Machine), ou Ian Carr e Karl Jenkins (dos Nucleus), congregam-se aqui, regurgitando as suas pulsões mais criativas e informais. As vozes que pontualmente se ouvem, em vagos devaneios, são regidas pela esposa de Keith Tippeth, Julie. A sua lógica é igualmente críptica. Os restantes instrumentistas presentes foram recrutados entre alunos da London School of Music. Elementos primordiais do experimentalismo fundem-se à lava abrasiva dos sopros e ritmos do jazz mais livre e incandescente, criando uma permanente montanha-russa sonora, entre devaneios disformes e vagas esmagadoras, cuja audácia e excesso não seriam certamente possíveis actualmente.
Contudo, em 1971, a materialização de música assente na liberdade extrema estava na ordem do dia e, com o genial guitarrista dos King Crimson - Robert Fripp - sentado na mesa de produção, este delírio colectivo pôde expandir asas e voar sem destino. Consta que, ao vivo, os Centipede chegaram a albergar cem músicos no mesmo palco, gerando um autêntico tsunami sónico. Nunca os poderemos ver. Mas, como nas melhores obras de arte, ouvindo podemos sonhar com as ondas gigantes geradas por esta orquestra da beleza e do caos.

1 de março de 2014

Movimento Perpétuo




Ainda faltam alguns meses para nova edição do Jazz em Agosto, o mais importante, histórico e pertinente festival de jazz realizado em terras lusitanas. As 30 edições cumpridas no ano transacto culminaram com a edição do livro Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz, uma resenha dos nomes mais relevantes que actuaram no festival ao longo da sua história. 
A obra, assinada por Stuart Broomer, Brian Morton e Bill Shoemaker, acaba por transcender a homenagem ao evento que, com o passar dos anos, se tornou cada vez mais ilustre e incontornável. Consegue igualmente funcionar como súmula das evoluções e revoluções que o jazz sofreu ao longo das últimas três décadas e que os palcos da Fundação Calouste Gulbenkian conseguiram, muitas vezes arrojada e audaciosamente, difundir.
Basta passar os olhos pela capa para ver que o material é mistura fina. De Anthony Braxton a Sun Ra, de Ornette Coleman a John Zorn, muitos são os vultos incontornáveis deste género musical objecto de dissecação e dissertação. Sob a pena dos três experts supracitados, sucedem-se pequenas biografias desses grandes nomes, assim como uma discografia selectiva e recomendada. Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz é uma obra sólida e fundamental para o entendimento do jazz de vanguarda e do perpétuo movimento que o faz parecer sempre imutável mas também sempre novo.

10 de dezembro de 2013

O Homem dos Quatro Instrumentos

John Surman começou por ser uma figura chave no boom do novo jazz britânico nos finais dos anos 70. Saxofonista exímio e caloroso, foi abandonando ao longo da sua carreira os territórios mais óbvios da cartilha jazzística, enveredando por estéticas mais atmosféricas. Esta lenta migração deveu-se sobretudo à ECM, casa da qual Surman é residente a tempo inteiro desde a edição de Upon Reflection em 1979.
O estilo do músico inglês é, hoje, inconfundível. São enaltecidas as atmosferas e as ambiências nocturnas e instrospectivas e o tom meditativo e melancólico impera na maioria dos seus registos. John Surman acaba por ser, em simultâneo, uma influência e um produto da escola ECM, um dos mais importantes definidores da sua estética.
Da sua vasta obra, um dos discos mais emblemáticos é Private City, de 1987. Um disco criado para um bailado com o mesmo nome, feito de improvisações e no qual, como começará a ser tendência no seu percurso criativo, Surman executa todos os instrumentos, saxofone, clarinete, piano e sintetizadores. O controlo é total, a mestria absoluta. Apesar do nome, a música não evoca apenas paisagens citadinas. Persiste um misticismo, que conjura os elementos e acorda sentimentos.
O álbum começa com um dos mais belos e perenes temas de John Surman, Portrait of a Romantic. Uma lenta e arrebatadora espiral de clarinete sobre piano eléctrico com efeitos balsâmicos e transcendentes. E termina com The Wizard's Song, outra composição perfeita, atmosférica e cinemática, que fica a ressoar inconscientemente muito tempo depois do disco ter terminado. Outras magníficas paragens nesta jornada incluem Not Love Perhaps, ruminação crepuscular ladeada por vozes fantasmagóricas, The Wanderer, melodia cristalina e contemplativa que serpenteia encantatoriamente ao nosso redor, e Roundelay, em que uma miríade de sopros em overdub ganha contornos de jazz de câmara.
Místico, sideral e sempre envolvente, Private City é a obra de um músico romântico mas aberto às possibilidades sónicas para expandir a sua arte. Dessa forma expande igualmente o coração e a mente de quem o ouve.

5 de dezembro de 2013

Jazz Impuro

Eric Dolphy foi um dos maiores inovadores do jazz da década de 60. Multi-instrumentista exímio, dividido entre o saxofone, a flauta e o clarinete, impulsionou o género para a vanguarda durante a sua curta existência. Dolphy faleceu aos 36 anos, no auge do seu talento e após a edição daquela que muitos consideram a sua obra máxima: Out To Lunch!
Foi apenas o quinto disco lançado durante esse esparso tempo de vida. Estávamos em 1964 e outras obras marcantes fizeram desse ano um período rico para o jazz. Crescent de John Coltrane, Speak No Evil de Wayne Shorter ou Spiritual Unity de Albert Ayler, são alguns dos clássicos de um estilo musical que começava a afastar-se do seu estatuto de entretenimento para angariar cores da paleta do experimentalismo. Cada vez mais próximas das estruturas avant-garde da música clássica contemporânea que da propulsão do swing, as novas tendências jazzísticas apontavam armas à mente em detrimento do corpo.
Out To Lunch! combina com mestria física e metafísica. O quinteto de Dolphy (com especial destaque para os acólitos Freddie Hubbard e Bobby Hutcherson, respectivamente no trompete e no xilofone) alcança momentos mais transcendentes e cerebrais sem nunca trocar a paixão pela razão. Abundam os solos e as mudanças de textura, as variações de ritmo e a complexidade melódica. Caminhamos pela fronteira entre um jazz que ainda é bebop mas que já tem muito de free. Hat and Beard é vertiginoso e desconjunta-se para se unir de novo. O tema-título assemelha-se a uma marcha jazzística entrecortada por quebras de tempo, ritmos angulares e melodias dissonantes. Something Sweet, Something Tender é o tema lento flagrante do disco, mas a estranheza da estrutura e rasgos de atonalidade não deixam que a ternura e a doçura reinem em absoluto. Gazzelloni faz jus ao virtuosismo de Dolphy na flauta mas vincando as possibilidades experimentais e sónicas que este retira do instrumento. E Straight Up and Down tem um groove tão alienígena que quase poderíamos apelidá-la experimentalismo emocional.
Não é à toa que Out To Lunch! é considerado uma das obras-primas do jazz de vanguarda. É um disco desafiante e surpreendente ainda hoje. Os puristas do género poderão ficar de cabelos em pé com o arrojo e o ludismo com que a música é tratada, mas os amantes da arte mais transgressiva e progressista deliciar-se-ão continuamente.

18 de junho de 2012

Sopro na Alma

No final dos anos 60 do século XX, o jazz continuava a afastar-se progressivamente da sua primordial função de dança e entretenga. Os conflitos raciais na América e a porta cada vez mais escancarada ao acolhimento de novas influências, transformaram este género, negro na sua essência, em porta-estandarte de comunicação e reivindicação. Elementos espirituais e atávicos começaram a ser cada vez mais resgatados e a música tornou-se uma arte vanguardista, uma linguagem onde a religiosidade oriental e o retorno à Africa-Mãe para inspiração deram origem a cerimónias tão incendiárias quanto arrebatadoras. Karma, o terceiro álbum como líder do enorme saxofonista Pharoah Sanders é uma dessas distintas cerimónias. Dotado de uns pulmões sobrenaturais, este excepcional músico celebrizou-se, igualmente, por espalhar energia e alma em parcerias com John Coltrane e sua esposa Alice, entre outras luminárias do jazz mais avant-garde. Na obra em epígrafe, datada de 1969 e referência maior no honorável catálogo da lendária editora Impulse!, Sanders erege um monumento imponente e grave, mas igualmente libertador. Um monolito sónico dividido em duas partes, The Creator Has a Master Plan e Colors. A primeira peça, define, desde logo, o disco. Uma odisseia sobrenatural de 32 minutos de duração, que começa como franca reverência ao imortal John Coltrane de A Love Supreme e termina numa prece enlevada de saxofone e voz. Entre o princípio e o fim, uma miríade de variações sobre um tema, que assenta num groove em constante voragem. O elemento estranho mas absorvente é a voz de Leon Thomas, que se espraia entre o mantra hipnótico e transcendentes ululações. E o belíssimo fio de melodia que prende todo o tema estica até ao limite sem nunca se partir, desdobrando-se em infinitas camadas que vão da paz à exultação. Sem dúvida alguma, esta é uma das mais geniais composições de sempre nos anais do free jazz.
Talvez seja redundante afirmar que Colors nos invade o espírito com uma paleta de cores, mas não existe melhor forma de a descrever. O poder da voz de Leon Thomas é irresistível e o que fica quando a música magnífica se desvanece é a sensação que a nossa alma foi lavada e uma paz luminosa se apoderou de nós. Karma é um verdadeiro bálsamo musical, destinado a aplicação interna, sem contra-indicações nem perigo de sobredosagem.

21 de novembro de 2011

Jazz Core

Durante a primeira metade dos anos 70 do século XX, os Nucleus foram um bastião de bom gosto. Espalharam originalidade, charme, aventura e fleuma britânica ao longo dos seus primeiros discos, ao mesmo tempo que ensinaram o jazz a falar novas línguas.
Apesar dos disfarces, o jazz sempre foi o núcleo do grupo liderado pelo enorme Ian Carr. Ao longo desses verdes anos, de metamorfoses e da erosão das musas, os Nucleus nunca deixaram de jazzar com esmero. Mas também nunca deixaram de flirtar com o psicadelismo, nem abandonaram o sindicato do rock progressivo.
Em 1970, Elastic Rock entra de rompante e, praticamente, funda a cena jazz rock britânica. O primeiro sinal desponta na capa. A cascata lávica que escorre de uma erupção vulcânica, alegoria lógica à fusão. Depois vem 1916, com uma bateria que se estilhaça e lança chispas em todas as direcções. Esta pequena explosão serve de introdução a Elastic Rock, elegante e deslizante peça, desenhada entre sopros quentes e cordas soltas. Striation interrompe o elo, num curto estertor improvisado, ao que se seguem Taranaki e Twisted Track, belíssimos momentos de um jazz nocturno e apaziguador, mas ardente no seu núcleo. Os dois episódios de Crude Blues põem mais achas na fogueira e o jazz vai sendo progressivamente invadido pela energia primária do rock1916 (Battle of Boogaloo) solidifica em definitivo o magma do tema de abertura, fundindo os sopros de Ian Carr e Karl Jenkins à guitarra em espiral crescente de Chris Spedding.
É já na recta final de Elastic Rock que surge o seu tema central, Torrid Zone. É aqui que as influências do Miles Davis desconstrucionista estão ao rubro e que jazz e rock disputam acesamente o troféu da música. Stonescape e Speaking for Myself, Personally, in My Own Opinion, I Think... são curtos interlúdios que assentam na personalidade dos solos mais que em composições estruturadas. O transe fluido e complexo é retomado em Earth Mother, com a recorrente base rítmica das melodias a debitar um vigor escorreito e irrepreensível, tal como sucede na energética conclusão do álbum, a fervilhante Persephones Jive.
Quente, melódica e hipnótica, a primeira obra dos Nucleus será sempre um belo pretexto para aquecer as noites frias. Pouca luz é recomendável, talvez no bar perfeito (aquele que não existe...). Conduzir a horas mortas pela cidade é igualmente um bom método para o absorver. E o disco poderia também chamar-se Elastic Jazz que ninguém daria pela diferença...

17 de agosto de 2011

Jazz a Gosto



Já lá vão uns mesinhos, mas nunca é demais enaltecer a consagração da lusitana Clean Feed como uma das melhores editoras de jazz do planeta. Até porque, neste ano de 2011, cumpre-se o aniversário da primeira década da sua existência. A mutação da Clean Feed entre pequena editora e referência do jazz deveu-se muito à incorporação e divulgação de projectos internacionais no seu precioso catálogo. O encontro entre músicos nacionais e estrangeiros e a realização de eventos jazzísticos pelos caminhos de Portugal é outro dos alibis da editora para vir oferecendo excelentes discos desde The Implicate Order "At Seixal" até ao recente European Movement Jazz Orchestra Live in Coimbra.
Muito graças à Clean Feed, o novo jazz em Portugal está vivo e recomenda-se. Poucos foram os períodos em que residentes nas moradas do culto ou da vanguarda visitaram este cantinho à beira-mar plantado. Exploradores temerários como Peter Evans ou projectos promissores como Mostly Other People Do The Killing são passíveis de aparecer numa sala perto de si. É a regionalização do jazz, levada a cabo pela editora lisboeta. Um caso sério de qualidade e sucesso em tempos de depressão luso-generalizada. É aconselhável uma visita demorada à Trem Azul, possivelmente a melhor loja da capital dedicada ao jazz e que guarda todo o catálogo da Clean Feed. Esse catálogo pode ser consultado aqui. Algumas notas soltas sobre peças desse catálogo estão disponíveis aqui.

29 de junho de 2011

Negritude

A união faz a força. Quando os raios atravessam o ar em alturas de tempestade, provocam o fenómeno conhecido como trovoada. A colisão entre Archie Shepp e Philly Joe Jones, captada em Paris no ano da graça de 1969, é um trovão ribombante e invasivo. O primeiro é (ainda) um saxofonista de excepção, um dos pioneiros do free jazz e do cruzamento entre este género e o tribalismo que o infectou nos anos 60. É dono de discos fabulosos desta era como The Music of Ju-Ju e The Way Ahead. O segundo foi um criativo baterista, que fez a escola primária no bebop e se licenciou em  jazz modal. Constam do seu currículo memoráveis colaborações com Miles Davis ou, como líder, Showcase.
O encontro foi, já se sabe, bombástico. Shepp apresenta-se sozinho, debatendo-se no vórtice intenso do sexteto de Jones. O ilustre colectivo, composto, entre outros, por luminárias como o violinista Leroy Jenkins e o saxofonista Anthony Braxton, desarruma convenções e passeia pelo caos.
Archie Shepp & Philly Joe Jones é jazz livre na sua mais pura forma. Uma imensidão sensorial, abrasadora como o inferno. Um quadro impressionista vermelho sobre fundo preto. Uma ferida aberta.
Desçamos ao cenário, quente e fumarento, onde tudo se passa. Vozes possessas, gritos vagos, desencadeiam a entrada apocalítica de Shepp, logo seguido por Jones. Segue-se uma avalanche de quase 20 minutos chamada The Lowlands em que a liberdade é total. Chicago Beau interrompe pontualmente o cataclísmico idílio com récitas inflamadas, primárias. A música avança em linha recta, violentamente inebriante, e sentimo-nos como se estivéssemos a escutar tudo numa sauna. A peça pretende reflectir a vida dos negros no sul dos Estados Unidos e o sentimento de cerco e opressão é magistral, o que enfatiza o poder da libertação interior.
A segunda e última composição do disco divide-se em duas partes e intitula-se Howling in the Silence. A parte a), Raynes or Thunders começa por intuir um falso swing antes de resvalar para a abstracção intensa do improviso emocional. Chicago Beau irrompe novamente, qual pregador atormentado, e o violino tresmalhado de Leroy Jenkins acrescenta uma atmosfera de pântano sulista ao tema. A parte b), Julio's Song, inflecte para o trilho dos blues, nomeando a harmónica de Julio Finn que aqui se faz ouvir como um eco remoto do delta do Mississippi. A música gira em transumância, percorrendo os quatro cantos do jazz e arrasta-nos com ela para um estado de vadiagem mental. O disco que começou aos berros acaba por esvair-se num último estertor de harmónica e contrabaixo, sussurrando don't try this at home...
Archie Shepp & Philly Joe Jones é uma das experiências mais limite do jazz, qualquer que seja o ramo da sua árvore genealógica. Para a posterioridade ficou uma gravação crua e pouco depurada, um som visceral e escuro, que num momento ataca e no outro seduz. Diamante jazz por lapidar...

4 de junho de 2011

Dieta Mediterrânica IX

Defraude-se quem vem aqui à procura dos góticos de Northampton. Cinco anos antes deles voltarem do mundo dos mortos, alguém se apropriou musicalmente do nome da escola de Gropius. Eram italianos, surgiram de rompante e assim se sumiram. A única prova da sua existência é Stairway to Escher, álbum gravado de uma assentada, ao vivo em estúdio, coisa inebriante e intensa. A arquitectura do jazz rock impregna o disco, uma música quente e suada, comunicativa e contagiante. Muito na senda dos Return to Forever ou dos Weather Report.
Stairway to Escher apresenta-se mais como uma raridade que como uma referência musical. Mas, como troféu de caça que é, a qualidade dos seus elementos, quer humanos quer artísticos, nao pode ser olvidada. Formado por alguns elementos dissidentes dos Buon Vecchio Charlie (já falados aqui), os Bauhaus distanciam-se do centro de gravidade do rock progressivo e passam à translacção em volta do jazz. As guitarras eléctricas ainda subsistem e a energia pulsa insistentemente. Mas o ouvido expande-se perante os empurrões do improviso, que fazem do disco uma espécie de saudável anarquia e uma espontânea demonstração de exuberância musical.
Tudo flui com método e improviso em Stairway to Escher. Não existem pontos fortes ou fracos. É um disco que abre buracos que ao mesmo tempo vão sendo tapados. The Lonious Gropious e Modulor são essencialmente geniais, jazz rock com botox a realçar as suas partes mais carnudas. Ri-Fusion e Tipi di Topi saltam fora do seu eixo e só são apanhados a tempo de evitar a projecção definitiva fora de órbita. O tema-título é escolástico na forma como aborda a fusão entre jazz e rock.
Belíssima fornalha musical, o único legado dos Bauhaus italianos é obrigatório para viciados em experiências híbridas dos anos 70 e para amantes da música em desalinho.

Dieta Mediterrânica VIII

Virtuosidade e paixão, eis a melhor forma de definir os Arti e Mestieri. Esta lendária banda italiana, cambaleante entre o jazz de fusão e o rock progressivo, ainda está no activo, produzindo música com algum interesse. No entanto, é no seu despontar e consolidação que reside o génio. Após a agradável e influente surpresa que foi Tilt - Immagini per un Orecchio, primeiro álbum que vale o seu peso em ouro, Giro di Valzer per Domani depura definitivamente os Arti e Mestieri como mestres europeus da fusão nos anos 70.
Enquanto Tilt... assentava em temas longos de estrutura complexa que se desenrolavam em regime de improviso, o segundo registo do grupo oferece composições mais curtas e directas, se bem que igualmente vertiginosas na entrega e no entrechoque de instrumentos. Apesar da complexidade inerente, Giro di Valzer per Domani é um disco extremamente audível e sedutor. Adiciona aos elementos jazzísticos e à precisão cerebral um irresistível perfume latino. Melodicamente imaculada, a música é luminosa e viva. Bebe tanto nas águas límpidas de Canterbury como no misticismo caloroso da Mahavishnu Orchestra. Poderia bem ser uma conversa musical entre Miles Davis e Herbie Hancock em Sirmione, circa 1975...
Alguns temas são vocalizados, o que aproxima os Arti e Mestieri de muita da produção prog italiana da altura (caso típico é o excelente Saper Sentire). Mas são as peças instrumentais, no seu dócil frenesim, que mais se agarram à pele e aí se incrustam, resistindo ao tempo. Valzer per Domani, Mirafiori ou Dimensione Terra são alguns dos melhores exemplos a dar. Energia contagiante, melodias soberbas e instrumentação irrepreensível (especialmente o violino em estado de graça). Em suma, uma obra-prima de fusão progressiva. Merece uma palavra especial de apreço Furio Chirico, um dos melhores bateristas de sempre, a catapulta do disco, que trata as peles com desvairada galhardia. A prova dos nove está em Sagra, Mescal, Da Nord a Sud...
Giro di Valzer per Domani é mais uma referência da Itália musical dos anos 70. A representação ideal do tratamento transalpino dado à música fusional. A arte está na sedução, o mistério no imprevisível.

30 de janeiro de 2011

Ponto de Fusão

In a Silent Way ocupa um lugar peculiar na interminável discografia de Miles Davis. Arrumado entre os indícios de fusão de Filles de Kilimanjaro e o monumental Bitches Brew, este álbum de 1969 pode ser reconhecido como o primeiro disco eléctrico do maior trompetista de jazz de todos os tempos.
É uma obra discreta, nocturna e algo misteriosa. Arrasta consigo um luar majestoso e uma aura de film noir. Possui a estrutura de uma sinfonia clássica, com os seus dois temas subdivididos em 3 movimentos cada, ouve-se como um disco de rock progressivo e sente-se como um disco de jazz. Parece confuso, mas quando chegamos a It's About Time, segundo movimento da circular In a Silent Way, tudo se conjuga com uma limpidez ofuscante. Piano eléctrico, guitarra eléctrica, órgão, trompete, baixo e bateria fundem-se, complementam-se, afastam-se e enlaçam-se, soprando-nos ao ouvido que estamos perante a mais bela abstracção musical que foi inventada. Algo intemporal e indefinido, mas que não apetece parar de ouvir, tal como olhar para um quadro de Jackson Pollock e não tentar explicar. Antes disso, embrenhámo-nos na cinemática e hipnótica Shhh/Peaceful, peça que se move como um felino na noite, deslizando pelas sombras como a trompete de Miles e sempre de atalaia como os címbalos incessantemente varridos de Tony Williams. É música pintada de negro e azul, quente e sensual, uma especiaria sonora.
In a Silent Way é um disco para ser ouvido do princípio ao fim, sem interrupções que quebrem a espiral do seu círculo e o feitiço que conjura. O seu ecletismo transforma-o num disco para noites solitárias, para um whisky à média-luz, ou para fazer ressoar como seda em íntima cumplicidade. A partir daqui, já não sabemos se podemos continuar a chamar jazz à arte de Miles Davis. Sabemos, isso sim, que se seguiu uma imensidade de música genial, única e pioneira. Acólitos fiéis como Jaga Jazzist ou Cinematic Orchestra ainda andam por aí a comprová-lo...

6 de novembro de 2010

Jazz Trip

Pelo que se ouve no começo, bem poderia ser uma composição de Albert Ayler ou Anthony Braxton. Mas a súbita e impiedosa invasão electrónica coloca-nos num limbo onde é estranho e intrigante permanecer. Esta coisa chama-se Triptik 2, espantosa primeira faixa do único álbum do francês Jean Guérin. Guérin costumava ser baterista de jazz nos finais dos anos 60. Free jazz para ser mais preciso. Como se a audácia e o experimentalismo dessa escola não lhe bastassem, o músico decidiu temperar o seu estilo com fortes injecções electroacústicas (Stockhausen e Xenakis perseguem-no com o olhar...) e adicionar-lhe ainda fortes pitadas de musique concréte.
Tacet, disco de 1971, é uma pérola na obscuridade, um dos mais surreais e originais discos de jazz do século XX. A base assenta nos alicerces usuais do género: bateria, trompete, saxofone e contrabaixo. Mas a intrusão poderosíssima da electrónica primitiva e a utilização da voz (neste caso a da senhora Françoise Achard) como uma interjeição instrumental a juntar às demais, colocam Tacet num plano mais elevado. No plano da música incatalogável.
Será jazz o que se ouve em Maochat? Será música clássica contemporânea o que se ouve em Ça va Lecomte? É tudo isto e ao mesmo tempo não é nada. O jazz empalidece até à transfiguração gerada pelas máquinas, a atonal estrutura das composições é mantida em lume brando por sopros esqueléticos de trompete ou cambaleantes swings de contrabaixo. Na Itália, os Dedalus esculpiam pedra similar. Tal como a electrónica abstracta dos alemães Kluster, que aqui parece encontrar uma alma gémea. Permitimos a entrada a Interminable Hommage a Zaza e a voz que nos sopra aos ouvidos parece tão inumana (em linguagem sensitiva e não no sentido filosófico de Lyotard) como a bizarra e estilhaçada instrumentação parece lisérgica. O melhor é deixado para o fim. Gaub 71 resume exemplarmente a trip à qual acedemos e da qual é difícil despertar. Nebuloso e centrífugo, leva o jazz (se é que se pode chamar a isto jazz) a mares nunca dantes navegados.
Depois desta experiência extrema, Jean Guérin nunca mais voltou. Tacet foi a banda-sonora de um esquecido fime de autor (Bof, de Claude Faraldo), mas o seu arrojo e ambição artística mantém-no até à data como banda-sonora para a mente. Um dos discos mais estranhos, vanguardistas e imprevisíveis que ouvi até hoje, em qualquer estilo. Continua a ser fundamental para o entendimento de como as linguagens electrónicas mudaram o rumo da música do século XX, radicalizando até o que parecia imutável. Uma lição e uma cartilha para os experimentalistas da actualidade.

15 de agosto de 2010

Jazzonautas

Se a escrita fosse jazz, a prosa de Jorge Lima Barreto em Jazzarte 2 seria um disco de Cecil Taylor ou Ornette Coleman. Nesta obra, tão original quanto poética, do doutorado em Musicologia que é também 50% dos Telectu, experimentam-se as palavras em tom de improviso. Escreve-se sobre jazz como se ouve jazz, em sucessões de frases belas, complexas, inventivas e inventadas.
Jazzarte 2 conta uma erudita história desta música, que não é para iniciados, mas sim para quem a conhece e a ama. Os neófitos nesta matéria poderão perder-se nos meandros das páginas como numa das obras mais difíceis das parcerias do autor com Vítor Rua. A cronologia é atípica, a terminologia hermética e a escrita flui em mosaicos que se cruzam e desencontram.
Obra obrigatória e indispensável para a afición jazzística mais intelectual e vanguardista, Jazzarte 2 faz a música ressoar nas nossas cabeças. Apetece pegar num disco de Albert Ayler ou Anthony Braxton para apaziguar a fome de sons livres e agitadores. Abraça igualmente a filosofia do jazz, as suas raízes, o seu propósito, a forma como nos alimenta a existência.
Nas palavras de Rui Neves (outro homem do jazz, cujo programa Jazzosfera na extinta XFM deixou-me eternas saudades) no prefácio à primeira edição que seguro agora nas mãos: "Jazzarte 2 é o mais importante livro sobre jazz que se escreveu em língua portuguesa e a sua tradução impõe-se de imediato." Mais não se pode dizer. Para ler avidamente e direccionado a quem gosta de pensar para além do que lhe é exigido. O jazz é uma língua-franca. Jazzarte 2 documenta-a e exalta-a magistralmente.

29 de junho de 2010

Jazz Club

Os apreciadores da série britânica The Fast Show, deverão recordar-se do momento dedicado ao jazz intitulado, apropriadamente, Jazz Club. Nele, satirizava-se impiedosamente o estilo musical, o seu milieu, o seu jargão e todos os tiques a ele associados. Sempre inteligentes, na veia da melhor e, ao mesmo tempo, mais hermética comédia britânica, estes pequenos sketches conseguiam ser povoados de excelentes músicos que aparentavam quase divertir-se mais que o espectador. Para almas que amam o jazz, mas que se deixam subverter por um magnífico trabalho de humor, eis alguns momentos transcendentes de Jazz Club. Acho que até o circunspecto Evan Parker deve rir com isto...

17 de abril de 2010

Ils Ce-Sont Fous, Ces Gaulois...

Gilbert Artman toca piano e fala francês, mas é, acima de tudo, um baterista nato. Preciso quando é preciso, extravasando quando assim lhe é exigido. Músico de escola jazz por essência, fundou no colectivo gaulês Lard Free uma fusão entre esse estilo, o rock e a electrónica mais sedentos de desbravamento. Gilbert Artman's Lard Free, primeiro capítulo oficial destas catanadas musicais, fez-se em 1973 e manifesta-se como um disco arrojado e visionário para a época. A mistura incandescente e totalmente instrumental, umas vezes abrasiva, outras atmosférica, de sonoridades orgânicas com electrónicas, coloca este disco nos píncaros de uma nova onda revigorante da música francesa, que encontraria similitudes nos Heldon ou nos mais freaky Atoll.
...Lard Free inicia a sua lenta invasão mental com Warinobaril, em que a secção rítmica, cadente e impenetrável, se volta de costas para um saxofone em cantus horribilis tal e qual sereia e uma guitarra que parece gritar por soltura. 12 ou 13 Juillet Que Je Sais d'Elle cresce lentamente, invadindo-nos com uma suave paranóia, muito graças ao sintetizador ansiogénico e imparável que penetra os tímpanos em golpes agudos; sem aviso, uma guitarra perigosamente Frippiana enceta uma segunda parte do tema, esquizofrenicamente distinta da primeira, e em que os ritmos mais espaciais do jazz são novamente reis e senhores. Sente-se já aqui o ténue aroma do fugaz movimento Rock in Opposition, variante extrema do avant-garde progressivo e que influenciou grupos altamente recomendáveis, mas dotados de igual dose de saudável insanidade, como os suíços Dèbile Menthol ou os canadianos Miriodor.
Honfleur Écarlate prossegue a eucaristia a Fripp, que aqui dá pelo nome de François Mativet, mas que emula o mestre na perfeição. Lá atrás, o ritmo propositadamente monótono e descarnado parecem antecipar as litografias musicais em miniatura do excelso Another Green World de Brian Eno. Acide Framboise, provavelmente o momento-chave do álbum, abre com um cinematográfico sintetizador que, por mais que o ouça, não me tira da cabeça o belíssimo filme Der Stadt Der Dinge de Wim Wenders... talvez porque o tema é, no seu todo, cinematográfico; talvez porque a música é tão envolvente, entorpecente e enigmática como a própria película. Um contínuo latejar que invoca noites estranhas ou madrugadas fora do sítio...
Livarot Respiration é docemente noctívaga, impregnada de solidão e fumo e levemente claustrofóbica, devido ao pulsar do baixo de Hervé Eyhani que, apesar das subtis nuances, parece nunca projectar-se além do mesmo círculo. Culturez-vous vous-mêmes termina o álbum em tom lúgubre e minimal, quase um assombro dos Kluster e da sua electrónica ancestral.
...Lard Free é um dos discos mais misteriosos que conheço. Após inúmeras audições, a sensação de estranheza e de incompletude mantém-se. É por isso que gosto tanto de regressar a ele para nunca o descobrir. Algo como ser abraçado pela Vénus de Milo...

24 de outubro de 2009

Dieta Mediterrânica IV

É parca a informação em torno do colectivo italiano Dedalus. Originários de Turim, tiveram o seu apogeu no início dos anos 70. A isso se deve o brilhante primeiro álbum que editaram e que replica o nome da banda. Algures entre o jazz mais experimental, a electrónica mais expansiva e as paisagens de Canterbury, Dedalus é uma experiência auditiva embebida no mais audaz e livre espírito da época.
A abertura faz-se sinuosamente com Santiago, em que uma guitarra divagante se junta a um contrabaixo enérgico, cativando abruptamente e logo à partida. Uma pausa para respirar e eis que um saxofone igualmente atrevido toma o tema de assalto, conquistando-nos irremediavelmente. Defraudando as expectativas da melhor forma, este exercício de jazz rock inflecte para territórios de electrónica espacial, que se distende livremente até à fusão final em apoteose jazzística. Leda abre com chispas ecoantes de piano eléctrico, temperado por um tímido saxofone. Peça de atmosfera deliciosa e quente, introduz reminiscências dos Soft Machine das eras de Fourth e Fifth. Conn envereda pelo mais puro improviso, avançando às apalpadelas por entre a precisão rítmica de relojoeiro suíço. Segue-se C.T.6, peça complexa e magnificamente executada, segmentada em breves e caleidoscópicos trechos, que se vão sucedendo progressivamente para produzir um autêntico patchwork sonoro. Um panegírico para os sentidos. O quinto e último tema, Brilla, conclui o álbum num devaneio de jazz cósmico, progressivo, num turbilhão inescapável de alimento para a mente.
Para além dos supracitados Soft Machine, essa obra-prima do jazz de fusão que é Bitches Brew de Miles Davis surge inescapavelmente à ideia. Mas, neste disco de 1973, os Dedalus conseguem manter uma consistência de tal forma incrível, quer a nível composicional, quer a nível execucional, que nos envolve deliciosamente e nos faz esquecer tudo para além da excelência do momento.

26 de abril de 2009

Meditations

Tornou-se um lugar-comum afirmar que, por detrás de um grande homem, existe uma grande mulher. Na maioria dos casos, no entanto, essa mulher permanence na sombra, como uma presença latente e obscura, oráculo que ilumina e orienta, mas nunca é banhada pelo spotlight. O trabalho de Alice Coltrane como compositora e intérprete de jazz sempre foi ofuscado pelo génio e brilhantismo do seu esposo, o gigante John Coltrane. Ambas as obras se regem por uma espiritualidade imensa, mas, ao mesmo tempo, por uma dualidade masculina e feminina, pelo yin e yang que faz com que pólos opostos se atraiam. Se John era a força e a energia, a comunicação com o divino pela prostração e pela exaustão, Alice era o misticismo e a clausura, a flor que desabrocha ao sol e se fecha à noite. Ptah, the El Daoud, majestoso álbum de 1970, e o seu terceiro a solo, é um disco de revelações. A melodia austera e solene que abre caminho à improvisação em lume brando do tema-título é, desde logo, convite a uma meditação que, para além da exégese, injecta sucessivamente doses de prazer auditivo a quem se deixar levitar. Tomando a levitação como mote, o jazz cósmico, nocturno e nebuloso de Turiya and Ramakrishna, comandado pelo piano dolente de Coltrane e pelo chocalhar tibetano dos sinos, é balsâmico e envolvente. Blue Nile faz jus ao nome, com a harpa multicolorida da senhora e as flautas serpenteantes e misteriosas de Pharoah Sanders e Joe Henderson a transportar-nos numa viagem onírica ao longo do Nilo, iluminados por um sol incandescente e opulento. Um jogo de luz e sombras, verdadeiro alimento para a alma... No fim, Mantra, peça que nos arrasta na corrente emotiva dos saxofones tenor de Sanders e Henderson, em duelo e em transe, a espalhar caos como um turíbulo até ao final, onde o círculo se fecha e a união das partes é total. Numa altura em que o jazz se voltava para Oriente ou para civilizações arcaicas e para o seu misticismo em busca de inspiração, este disco continua a ser uma experiência única, especialmente pela busca dos intérpretes em alcançar a transcendência através da música e de como algo de realmente espiritual se manifesta a quem mergulha nestas melodias e intrincadas improvisações que escorrem como lava...