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31 de dezembro de 2015

Dieta Mediterrânica XII

Uma agulha num palheiro. Ou uma pérola numa ostra. Eis dois aforismos que definem o encontro com Integrati...Disintegrati na actualidade. O único álbum (conhecido) do italiano Franco Leprino é uma jóia rara de encontrar e, definitivamente, a preservar.
Produto nascido em 1977, fase já decrépita da electrónica de simpatias progressivas, esta magnífica obra desafia não só a fecunda prole oriunda de terras transalpinas nessa década, como se impõe com recatada majestade.
Terão sido, provavelmente, a época do seu lançamento - contra-corrente com as tendências panfletadas -, ou a cordata assertividade dos sons que guarda, as barreiras maiores para o reconhecimento universal deste disco. Porém, Integrati...Disintegrati sobreviveu incólume à passagem de três décadas e conserva uma aura genuinamente refrescante e fascinante, fruto, especialmente, da peculiar mistura de instrumentos que lhe dão alma.
Franco Leprino é, acima de tudo, um músico clássico. A guitarra acústica serve de leito às suas composições. E é ela que, singularmente, toma o papel de charneira neste disco e nas duas partes que o constituem. A primeira é um exercício que brota de uma suspensão quase cósmica, uterina, e se torna telúrica com a invasão suave e acalentadora dos dedilhados e a minimal mas sublime melodia das teclas sintetizadas. Mais tarde surgirá um piano e um choro pueril, que darão lugar a nova elevação sideral, desta feita dominada pela electrónica state of the art da época, nomeadamente os quase omnipresentes Moog e VCS 3. E ainda há espaço para uma coda, feita de teclas, oboé e cordas, num conjunto de tal forma envolvente cuja resposta não pode ser outra que a rendição à sua pulsante perfeição.
Mais abstracto, o segundo tema do álbum envereda por territórios mais experimentais, denotando que Leprino é um estudioso atento da música contemporânea, podendo elevar a fasquia do belo ao atonal e do melódico ao dissonante. Se a primeira parte da obra pode ser entendida como a integração, pela forma como os sons se conjugam para formar um todo coerente e sedutor, aqui chega a desintegração, uma contaminação pelo caos, um sonho que cede lugar ao realismo. Fragmentada e complexa, esta segunda parte apresenta-se mais escura e cerebral, mas com a porta para a sedução melódica sempre entreaberta. Ouça-se o interlúdio de guitarra acústica e flauta que soam a raio de sol que desponta por entre nuvens negras, para dar lugar a um mosaico electroacústico que culmina com o planante final do disco.
Integrati...Disintegrati acaba por ser uma ponte solidamente construída entre o clássico e o moderno, engenhosamente desenhada e nectárea como o favo de mel que ostenta na capa. Uma verdadeira obra de arte em termos de composição e estética e que merece bem mais que o culto obscuro que lhe tem sido devotado.

1 de fevereiro de 2014

Dieta Mediterrânica XI

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgu_ZuaA_6BlraL5R0F7PBWVCtD3hujdpAWhwxAy3gaekUBRiYNpjZfhP-Nct13zdHkEiH_tS88Jnco8lath_QCxhBrvCMA0vLF23pqSo8c9i6OFFdNU8BFZvjbiNPe42_71rF2obroKHq6/s1600/Elektriktus+-+Electronic+Mind+Waves+-+front.jpg
O projecto Elektriktus é uma estrela isolada na constelação de lavores do músico italiano Andrea Centazzo. Mais inspirado por estéticas avant-garde e pelo jazz improvisado, editou em 1976 um disco de nome Electronic Mind Waves que o aproximou perigosamente dos devaneios cósmicos alemães desse período.
Esta obra misteriosa principia com uma descarga de sons cintilantes e agudos, que agulham os ouvidos como se quisessem purgar a mente de qualquer pensamento para a invadir sem resistências. Chama-se Frequencer Departure e dilui-se progressivamente na siamesa Flying At Day-Break até que o ataque se resume a um murmúrio espumoso e flutuante.
First Wave sincroniza os padrões, emitindo ondas sonoras cadentes e repetitivas sobre um ritmo fixo e maquinal. Mais duas ondas se seguirão, a primeira vibrante e fluida, a segunda apaziguadora e suspensa. Pelo meio instalam-se Power Hallucination, devaneio sombrio que pinga gotas electrónicas e sopra ventos cibernéticos, e Implosion, nova espiral que combina melodias circulares a envolvências meditativas, a tendência geral do disco. É igualmente em círculo que Electronic Mind Waves se fecha no final. Primeiro com o balsâmico e planante Flying At Sunset e depois com o cair do pano definitivo de Frequencer Arrival. Volta a acupunctura sonora, mas desta vez em tons graves e crepusculares.
Da aurora ao ocaso, a única obra do percussionista Andrea Centazzo sob a denominação Elektriktus é uma preciosidade a descobrir e valorizar. As influências germânicas são de sobremaneira evidentes (Kraftwerk e Neu! nos temas mais ritmados, Conrad Schnitzler e Cluster nas peças mais atmosféricas), mas a paixão e a frescura que vibram neste disco demonstram mais inventividade que mero decalque. E Electronic Mind Waves pode muito bem ser a melhor referência da Itália como satélite da música cósmica.

18 de agosto de 2011

Dieta Mediterrânica X

O nome Riccardo Zappa leva, inconscientemente, a uma busca mental pela árvore genealógica que o ligará forçosamente a Frank Zappa. Mas o italiano e o americano apenas comungam do amor pela guitarra. E nem nisso são unânimes, pois o Zappa gringo foi um virtuoso da guitarra eléctrica e o Zappa transalpino é um virtuoso indefectível da guitarra acústica.
Separado assim o trigo do joio, nada como apreciar em toda a sua plenitude o primeiro álbum deste artesão das seis cordas, ainda em actividade. Celestion, disco de 1977, surgido em pleno declínio da fase de ouro do Rock Progressivo italiano, é uma obra nada decadente e onde classicismo e modernismo se unem. Totalmente instrumental mas não totalmente um solilóquio, abrange com enorme originalidade as diversas facetas e possibilidades da guitarra acústica. Frammenti é o trecho mais expansivo de todo o álbum. Uma peça que transcende os dez minutos e que expõe uma guitarra pejada de efeitos, que não encobrem a mestria. A tradição italiana de melodias a roçar o divino sem serem necessariamente sacarinas, impõe-se. Um intermezzo congrega a banda que acompanha Zappa e transforma-se numa estranha excursão rock, liderada por uma guitarra acústica electrizante. Ao rumar para o destino, Frammenti volta a ser clássica, a guitarra a soar como o sopro de muitas eras.
Tre e Quattro Quarti enceta a mesma viagem que o tema anterior, mas encurta os passos. A vertente clássica transborda com intenção redobrada, assim como a reviravolta rock acentua a energia. Uma bizarra ponte entre arcaísmo e modernismo. Segue-se o tema-título, a confirmar que estamos perante um disco de grande beleza e não apenas um disco de um grande guitarrista. Ela, a guitarra, soa aqui como um objecto surreal, a raiar o electrónico. Quando a bruma se dissipa e deixa vislumbrar os traços do rock, ficamos perante um imaginativo exercício, em que o baixo gordo e a bateria algo funky administram um raro exotismo à hegemonia da guitarra.
Sonata Mediterranea é uma brisa morna e suave de folk italiana, que apetece ouvir junto ao Lago di Garda ou nas costas da Sardenha. Na companhia certa, pode ter efeitos afrodisíacos...
A última cascata de guitarra materializa-se em Mirage. A toada é a mesma que ficou para trás. Acrescente-se uns lampejos que trazem à memória o mais pastoral de Mike Oldfield e poderíamos estar numa versão transalpina da cena de Canterbury.
Riccardo Zappa é visto hoje em dia como um dos maiores (e melhores) guitarristas clássicos de Itália. Infelizmente, criatividade e virtuosismo parece terem seguido caminhos separados e a sua música há muito que não deslumbra como nas primeiras obras. Celestion pode, assim, ser considerado um dos últimos estertores da música de superlativa qualidade produzida na Itália dos anos 70. Devia haver um museu para exibi-la e conservá-la.

4 de junho de 2011

Dieta Mediterrânica IX

Defraude-se quem vem aqui à procura dos góticos de Northampton. Cinco anos antes deles voltarem do mundo dos mortos, alguém se apropriou musicalmente do nome da escola de Gropius. Eram italianos, surgiram de rompante e assim se sumiram. A única prova da sua existência é Stairway to Escher, álbum gravado de uma assentada, ao vivo em estúdio, coisa inebriante e intensa. A arquitectura do jazz rock impregna o disco, uma música quente e suada, comunicativa e contagiante. Muito na senda dos Return to Forever ou dos Weather Report.
Stairway to Escher apresenta-se mais como uma raridade que como uma referência musical. Mas, como troféu de caça que é, a qualidade dos seus elementos, quer humanos quer artísticos, nao pode ser olvidada. Formado por alguns elementos dissidentes dos Buon Vecchio Charlie (já falados aqui), os Bauhaus distanciam-se do centro de gravidade do rock progressivo e passam à translacção em volta do jazz. As guitarras eléctricas ainda subsistem e a energia pulsa insistentemente. Mas o ouvido expande-se perante os empurrões do improviso, que fazem do disco uma espécie de saudável anarquia e uma espontânea demonstração de exuberância musical.
Tudo flui com método e improviso em Stairway to Escher. Não existem pontos fortes ou fracos. É um disco que abre buracos que ao mesmo tempo vão sendo tapados. The Lonious Gropious e Modulor são essencialmente geniais, jazz rock com botox a realçar as suas partes mais carnudas. Ri-Fusion e Tipi di Topi saltam fora do seu eixo e só são apanhados a tempo de evitar a projecção definitiva fora de órbita. O tema-título é escolástico na forma como aborda a fusão entre jazz e rock.
Belíssima fornalha musical, o único legado dos Bauhaus italianos é obrigatório para viciados em experiências híbridas dos anos 70 e para amantes da música em desalinho.

Dieta Mediterrânica VIII

Virtuosidade e paixão, eis a melhor forma de definir os Arti e Mestieri. Esta lendária banda italiana, cambaleante entre o jazz de fusão e o rock progressivo, ainda está no activo, produzindo música com algum interesse. No entanto, é no seu despontar e consolidação que reside o génio. Após a agradável e influente surpresa que foi Tilt - Immagini per un Orecchio, primeiro álbum que vale o seu peso em ouro, Giro di Valzer per Domani depura definitivamente os Arti e Mestieri como mestres europeus da fusão nos anos 70.
Enquanto Tilt... assentava em temas longos de estrutura complexa que se desenrolavam em regime de improviso, o segundo registo do grupo oferece composições mais curtas e directas, se bem que igualmente vertiginosas na entrega e no entrechoque de instrumentos. Apesar da complexidade inerente, Giro di Valzer per Domani é um disco extremamente audível e sedutor. Adiciona aos elementos jazzísticos e à precisão cerebral um irresistível perfume latino. Melodicamente imaculada, a música é luminosa e viva. Bebe tanto nas águas límpidas de Canterbury como no misticismo caloroso da Mahavishnu Orchestra. Poderia bem ser uma conversa musical entre Miles Davis e Herbie Hancock em Sirmione, circa 1975...
Alguns temas são vocalizados, o que aproxima os Arti e Mestieri de muita da produção prog italiana da altura (caso típico é o excelente Saper Sentire). Mas são as peças instrumentais, no seu dócil frenesim, que mais se agarram à pele e aí se incrustam, resistindo ao tempo. Valzer per Domani, Mirafiori ou Dimensione Terra são alguns dos melhores exemplos a dar. Energia contagiante, melodias soberbas e instrumentação irrepreensível (especialmente o violino em estado de graça). Em suma, uma obra-prima de fusão progressiva. Merece uma palavra especial de apreço Furio Chirico, um dos melhores bateristas de sempre, a catapulta do disco, que trata as peles com desvairada galhardia. A prova dos nove está em Sagra, Mescal, Da Nord a Sud...
Giro di Valzer per Domani é mais uma referência da Itália musical dos anos 70. A representação ideal do tratamento transalpino dado à música fusional. A arte está na sedução, o mistério no imprevisível.

16 de julho de 2010

Dieta Mediterrânica VII

Algumas bandas oriundas da primeira vaga do movimento progressivo italiano ficaram conhecidas pelos nomes bizarros e extravagantes: A Premiada Padaria Marconi, melhor dizendo, Premiata Forneria Marconi, foi uma delas. Artisticamente, a opulência musical rivaliza com a denominação. Per un Amico, segundo álbum do colectivo, é o ponto alto dessa opulência, uma autêntica arca do tesouro da música mais depurada editada em 1972. Deparada com alguns hiatos ao longo da sua história, esta banda milanesa ainda existe, apresentando episódicos rasgos de magia (como no excelente Stati di Immaginazione, de 2006), mas nada comparável ao disco de que hoje aqui se fala.
Per un Amico foi um dos poucos discos que extrapolou além das fronteiras transalpinas, alcançando um considerável frissom na Inglaterra. A sua qualidade é inegável e assenta numa bela e escorreita mescla entre momentos brumosos e etéreos e rasgos viscerais e sanguíneos, muito ao estilo dos Van Der Graaf Generator.
O álbum abre fabulosamente com a leveza do theorbo em Appena un Po', tema que percorre toda a cartilha clássica, injecta-a de fulgor e vibra com um romantismo pulsante. Segue-se o dramático e intenso Generale, que avança desembestado, detém-se numa circular melodia militarizada, e prossegue a cavalgada, sem nunca desbaratar o rigor instrumental. Ventos mais amenos embalam-nos à terceira faixa. Per un Amico é magnífica em todos os sentidos. Das elásticas e imprevisíveis variações melódicas e de tempo à voz afastada mas sentida de Franco Mussida, a entrega é perfeita.
Il Banchetto é a prova que o rock progressivo não tem que ser massudo, carecer de sentido e assentar em faixas de 20 minutos para manifestar as suas intenções artísticas. Este tema, que conjuga mellotron, harpa, flauta e moog é um enorme swell sonoro, oceânico e poderoso, magnificamente executado sem perder o norte. Geranio é o último tema do álbum, que só peca por ser curto. Obviamente, é belíssimo e extremamente bem composto, guardando uma sensibilidade mainstream nos seus interstícios que o faz fluir com facilidade e transcender a rigidez de um estilo. Aliás, todo o disco é uma combinação de melodias geniais e composições inteligentes, o que o torna uma das mais inventivas obras de sempre do rock italiano. A acompanhar com um Chianti, à medida que cresce água na boca (mas um não muito caro, que a vida não está para luxos).

Dieta Mediterrânica VI

Campo di Marte é o nome de uma estação de combóios em Florença. Parte daí, e de uma subtil associação ao Deus da Guerra, o nome que estes toscanos extraíram para o seu projecto. E, tal, como o último expresso que passa na noite, também este colectivo teve uma rápida e fugaz aparição na opulenta cena musical italiana da década de 70. Campo di Marte, de 1973, é o seu único legado, excluíndo um álbum ao vivo de pouca memória. Segmentado em sete peças, ou tempos, o disco floresce sob a forma de diversos estilos e ambiências.
Primo Tempo ostenta guitarras e ritmos densos e pouco habituais na suave e subtil paleta de sons que domina o progressivo italiano. Soam espigões melódicos dos King Crimson dos inícios, temperados pela brisa do Tirreno.
Secondo Tempo é o momento mais delicioso do álbum. Primaveril e salvífico, ofuscante de flauta e sopros, poderia bem ser a génese de Ce-Matin La, tema da mesma estirpe presente em Moon Safari dos Air.
Terzo Tempo parece brotar de um aquecimento para os dedos de Ritchie Blackmore, evoluíndo para um épico rock, mais chegado à tradição inglesa, traído pelo linguajar de Enrico Rosa e pelos intróitos de flauta de Alfredo Barducci.
Quarto Tempo é uma fuga. Irrompe a galope, contorcendo-se sobre si mesmo, assombrado por um órgão que surge de todos os lados. Desaparece na evocação de algo que já foi ouvido aqui.
Quinto Tempo prova o ecletismo do disco e as suas metamorfoses musicais. É o tema mais orgulhosamente poeirento. Estamos num museu de cera? Ou no salão de um palácio florentino, rodeado por fantasmas que dançam um baile setencentista sem notarem a nossa intrusiva presença?
Sesto Tempo é outro tema sem tempo. A capacidade dos Campo di Marte de injectarem onirismo nas suas composições é notável, sendo que a ponte entre o clássico e o moderno é fácil de erigir. Se o pós-rock é a utilização de instrumentos do universo rock para fazer música futurista que em nada se lhe assemelha, aqui consegue-se o efeito inverso: a electricidade coloca-se ao serviço do classicismo, vestindo-lhe nova roupagem. Chamar-lhe pré-rock seria foleiro até à medula, até porque a denominação rock sinfónico caracteriza-o na perfeição desde há muito. Mas o que é certo é que a banda toca com instrumentos rock música que em muito o antecedeu.
Settimo Tempo é mais do majestoso mesmo. Beleza pura, sem vergonha de mostrar o que esconde, enfatizada pelo músculo delineado da energia roqueira. Como a estátua de David, aliás. Clássica e imortal.

11 de julho de 2010

Dieta Mediterrânica V

O primeiro e último álbum dos Buon Vecchio Charlie, homónimo, abre em clássico formalismo. Um excerto de In the Hall of the Mountain King de Grieg acende o pavio a Venite Giù al Fiume. Mas a chama libertada não se limita a emular a conhecida peça. Ela serve, isso sim, para um genial trabalho de decomposição e fragmentação. O que ao princípio soa como familiar aos nossos ouvidos, é resgatado para paragens remotas, nas asas imensas do poderio de seis inventivos italianos. Aliado ao conclave do progressivo, o calor do jazz inunda este enorme tema, que ainda consegue espaço para uma breve e subtil vocalização. Frenético e arejado, retrógado e arrojado, Venite Giù al Fiume é o exemplo perfeito da qualidade e intensidade do prog-rock levado a cabo pelos transalpinos em inícios de 70.
O disco prossegue com o soberbo e lindíssimo Evviva La Contea Di Lane. Canção perfumada com aromas de folk e floreados de Canterbury, guarda uma flauta nada menos que dulcíssima e invade-nos com a claridade de uma manhã de Verão. Inicia com a brisa de uma aurora morna e termina com o calor abrasador de um Sol a pique. O terceiro tema segue a tendência de muitos discos da época e preenche todo o lado B da edição em vinil. Dividido em cinco partes, All'Uomo Che Raccoglie I Cartoni é o pote de ouro no fim do arco-íris para qualquer entusiasta do rock progressivo. Enlaça-se e desvela-se numa infinita miríade de variações, sorvendo estilos e debitando melodias belíssimas pelo caminho. Todos os instrumentos têm uma palavra a dizer e soltam-na com graça, eloquência e a dose certa de improviso.
A edição em CD de Buon Vecchio Charlie acrescentou-lhe duas faixas extra, qualquer delas ao nível criativo do disco-mãe, mas menos orientadas para a sua homogeneidade progressiva. Rosa é uma sentida e terna balada, moldada em torno de um lacrimoso e solitário refrão e em que os intrumentos quase e só servem de muleta à voz embargada. A um minuto e pouco do fim, emudece a voz e o tema deixa-se levar por um fugaz devaneio jazzístico até se evaporar. Totalmente diferente é a alegre e charmosa Il Guardiano Della Valle, que tanto evoca tonalidades campestres e medievais como poderia servir de canção de protesto a militantes barbudos do Partido Comunista Italiano.
Sem data bem definida de lançamento (as opiniões divergem entre 1971 e 1972), este disco é igualmente algo indefinido, que surge das brumas do tempo para encantar. Indivísivel do rock progressivo, Buon Vecchio Charlie é igualmente uma obra que ultrapassa este nicho, devendo ser olhada como mais um capítulo inesquecível de uma Era de Ouro da música italiana.

24 de outubro de 2009

Dieta Mediterrânica IV

É parca a informação em torno do colectivo italiano Dedalus. Originários de Turim, tiveram o seu apogeu no início dos anos 70. A isso se deve o brilhante primeiro álbum que editaram e que replica o nome da banda. Algures entre o jazz mais experimental, a electrónica mais expansiva e as paisagens de Canterbury, Dedalus é uma experiência auditiva embebida no mais audaz e livre espírito da época.
A abertura faz-se sinuosamente com Santiago, em que uma guitarra divagante se junta a um contrabaixo enérgico, cativando abruptamente e logo à partida. Uma pausa para respirar e eis que um saxofone igualmente atrevido toma o tema de assalto, conquistando-nos irremediavelmente. Defraudando as expectativas da melhor forma, este exercício de jazz rock inflecte para territórios de electrónica espacial, que se distende livremente até à fusão final em apoteose jazzística. Leda abre com chispas ecoantes de piano eléctrico, temperado por um tímido saxofone. Peça de atmosfera deliciosa e quente, introduz reminiscências dos Soft Machine das eras de Fourth e Fifth. Conn envereda pelo mais puro improviso, avançando às apalpadelas por entre a precisão rítmica de relojoeiro suíço. Segue-se C.T.6, peça complexa e magnificamente executada, segmentada em breves e caleidoscópicos trechos, que se vão sucedendo progressivamente para produzir um autêntico patchwork sonoro. Um panegírico para os sentidos. O quinto e último tema, Brilla, conclui o álbum num devaneio de jazz cósmico, progressivo, num turbilhão inescapável de alimento para a mente.
Para além dos supracitados Soft Machine, essa obra-prima do jazz de fusão que é Bitches Brew de Miles Davis surge inescapavelmente à ideia. Mas, neste disco de 1973, os Dedalus conseguem manter uma consistência de tal forma incrível, quer a nível composicional, quer a nível execucional, que nos envolve deliciosamente e nos faz esquecer tudo para além da excelência do momento.

21 de julho de 2009

Dieta Mediterrânica III

O primeiro álbum do colectivo romano Quella Vecchia Locanda é mais um monumento à sofisticação que os italianos conseguiram incorporar no rock mais arty dos inícios da década de 70 do século passado. Um dos melhores, todavia. Incorporando belíssimamente elementos de flauta e de violino eléctrico nas suas composições semi-clássicas, o álbum homónimo desta banda é um fluir constante de soberbas melodias e fantasmáticas evocações. Prologo inicia a viagem em passos hesitantes de violino e piano, que logo se tornam confiantes com a entrada de uma secção rítmica marcial. O que sobra é uma letra fatalista, sobriamente cantada, e uma quebra aos 3 minutos de duração que arrasta e acentua a já intocável melodia. Un Villaggio, Un' Illusione começa em toada clássica, com o violino de Donald Lax (um americano em Roma...) a abrir majestosamente uma peça reminiscente do melhor dos Jethro Tull, mas com uma latinidade mais que expressiva. Alheia a isto não é a flauta pungente do igualmente vocalista Giorgio Giorgi, que prossegue docilmente no belíssimo Realtà. Balada executada de forma sublime por todos os intervenientes, recupera pela enésima vez o efeito nostálgico e inebriante de uma Itália renascentista, riquíssima e monumental, com efeitos devastadores. Quem diria que a maior parte destas bandas eram de esquerda?
Immagini Sfuocate é mesmo uma imagem desfocada, melodia distorcida pela guitarra invasiva de Raimondo Maria Cocco, que empalidece subitamente e transita para Il Cieco. Provavelmente o tema do álbum onde o improviso mais impera, a instrumentação é deixada ad lib do princípio ao fim, em ondulações jazz-rock que terminam com um brevíssimo violino de reminiscências Grapellianas. Dialogo prossegue numa senda mais rítmica, subordinado ao som característico do sintetizador (tastiera) de Massimo Roselli. O clacissismo impera novamente em Verso la Locanda, particularmente no magnífico violino introdutório, ao qual se segue outra cascata melódica, bela e irrepreensível, frenética e com mais uns pozinhos jazzísticos.
Mas estes afastados descendentes de Rómulo e Remo deixam o melhor para o fim. É quase indescritível a melancolia que impregna Sogno, Risveglio e... de uma beleza decadente e secular. Os Quella Vecchia Locanda podem ser romanos, mas é quase impossível não imaginar uma Veneza outonal que se afunda, lenta mas inexoravelmente, ao som do comovente carpir do piano e do violino gemebundo. Como se tudo o que é belo terá forçosamente de ser mortal, assim se extingue de forma sublime esta obra-prima...

14 de junho de 2009

Dieta Mediterrânica II

Os segundos iniciais de Principe di un Giorno parecem transportar-nos directamente para a noite de um remoto Carnaval Veneziano. A guitarra serena e a flauta morna passam, então, a comandar as operações em mais uma obra notável da música italiana dos anos 70. À faixa supracitada, primeiro tema que dá título ao único álbum dos Celeste, poderíamos chamar música balsâmica de San Remo, homenageando quer o aceto de Modena, quer a terra natal destes transalpinos. Uma autêntica massagem à alma, pricipalmente a partir da entrada dos instrumentos de sopro ao raiar dos 4 minutos da canção. Infelizmente (mas, também, felizmente!) este capítulo da música europeia continua votado à marginalidade e bafeja somente quem mergulha profundamente nos seus alfarrábios. E só mergulhando se podem alcançar caleidoscópios sonoros absurdamente belos e majestosos como Favole Antiche. Repentinamente somos colocados no cenário de A Midsummer's Night Dream de Shakespeare e não queremos acordar. O eco estático daquela voz que sopra ao ouvido e a irrealidade do ambiente criado fazem-nos crer que é possível dançar com ninfas e brincar às escondidas com duentes se aparecermos naquele bosque, naquela noite. Segue-se o belíssimo Eftus, em que vozes dispersas em suave psicadelismo despontam por entre a serenidade de laivos renascentistas invocada pelos instrumentos. Giocchi nella Notte é outro eloquente momento melódico, romântico na forma como principia a insinuar sem revelar nada para além do translúcido. Divido em vários fragmentos, este tema termina numa toada folk pastoral que nada fica a dever aos seminais The Incredible String Band. La Grande Isola é rock progressivo clássico, com instrumentação vária e irrepreensível à desgarrada, mas em que o mellotron é rei e a flauta é raínha. La Danza del Fato sucede-a, agradável e simples balada trovadoresca e polvilhada de sinos. No fim, L'Imbrolglio encerra o álbum em toada medieval e despojada da pirotecnia contida que ficou para trás. Álbum de traços conceptuais, Principe di un Giorno dos Celeste é algo de irrepetível. Algo que já parecia de um tempo que nunca existiu quando foi editado em 1976...

16 de maio de 2009

Dieta Mediterrânica

1972 foi um ano miraculoso para a música italiana. Com a ascensão do rock progressivo, sinfónico e megalómano em terras britânicas no início dessa década, a Itália parece ter encontrado um filão inesgotável de inspiração e de expressão da sua cultura orgulhosamente clássica e monumentalmente bela. Se as bandas inglesas enveredavam maioritariamente por um imaginário oscilante entre atavismos medievais e profecias espaciais, lendas arturianas e ficção científica polvilhada de ácido, os italianos apanharam a boleia deste balão rock insuflado por música clássica e pompa teatral, adaptaram-no ao seu modus vivendi ancestral e criaram um nicho sem paralelo na música popular do século XX. Haveria, porventura, género musical mais apropriado e que enfatizasse melhor o país do bel-canto, da verde Toscana, da moribunda mas imortal Veneza, da tão mediterrânica Sicília? Ao criarem uma música simultaneamente actual e remota, projectada para o futuro, mas embebida na Itália operática, cortesã e renascentista, inchada de um romantismo impossível de tão ideal e de uma beleza barroca de derreter icebergues, muitas destas bandas setentistas aproximaram o rock do Olimpo e das suas delícias; criaram ambientes de néctar e melodias de ambrósia. Da arca do tesouro, retiro hoje um rubi chamado Era di Acquario. Trio oriundo de Palermo, editaram, tal como muitas das bandas desta era dourada, somente um álbum, Antologia, no tal ano de 72. Mas que álbum! A abertura com laivos de flamenco de Campagne Siciliane abre caminho a uma flauta sublime que nos acaricia como um vento morno. O tema desenrola-se e leva-nos ao colo pelas aldeias brancas da costa siciliana, apetecendo mergulhar num Mediterrâneo osbcenamente azul. A este idílio segue-se Padre Mio, uma das poucas canções rock do álbum, urgente e carregada de dramatismo vocal, onde a guitarra revolta se entrelaça com a flauta melancólica. O ambiente amaina com a doce Idda, balada cintilante e balsâmica, entregue em voz serena. As três peças seguintes, curtas e instrumentais, são de uma beleza indescritível, que tem tanto de etéreo como de carnal. Solitudine percorre-nos como um pôr-do-sol estival, flamejante mas nostálgico. Vento d' Africa é mais uma melodia cálida e sensual, um convite ao enamoramento e a um copo de Frascatti para aliviar a canícula. Monica aus Wien, uma vez mais com a flauta a liderar, exala um romantismo inocente, algo de inatingível por ser tão breve, como cruzarmo-nos fugazmente com uma bela italiana que nos olha nos olhos e se afasta, deixando-nos apenas a impossibilidade do seu corpo e o odor do seu perfume. A fantasia termina com L' Indifferenza, canção de protesto em toada folk. Fuori al Sole é mais uma peça rock de belo efeito, ornamentada por uma guitarra que debita solos por entre uma solene mas fresca melodia. A toada eléctrica prossegue com Geraldine e a sua vocalização operática, exemplo vivo do cruzamento entre o groove do rock e as intricadas texturas da música clássica que os italianos fazem como ninguém. Antologia termina com Statale 113, que parece colocar os Byrds ou os Quicksilver Messenger Service a percorrer as estradas verdejantes da Umbria e com a flauta mágica em permanente encanto. No fim, passaram menos de 30 minutos. Tão pouco tempo para tanta beleza e qualidade. É melhor voltar à primeira faixa e apaixonarmo-nos novamente...