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6 de fevereiro de 2021

Kosmische Kosmetik LVII

 

O outro projecto musical do multi-instrumentalista alemão Nico Seel intitula-se The Space Spectrum. Aqui, o seu alter ego escapa às influências rítmicas maquinais e à austeridade melódica, enveredando por uma vertente assumidamente cósmica e psicadélica.
The Space Spectrum é forjado na encruzilhada onde o Krautrock e o Space Rock se encontram. Desta feita, as referências imediatas centram-se nos Hawkwind e nos Pink Floyd dos primórdios, mas o improviso trippy de conterrâneos como Amon Düül II encontra-se igualmente latente ao longo dos dez álbuns já editados com o selo do projecto.
O primeiro deles, denominado Cosmic Sounds, remonta a 2011. Tal como na one man band Krautwerk, Nico Seel assegura todos os instrumentos audíveis no disco. A solidão artística imperou até 2013, altura em que, ao sexto álbum, os Space Spectrum se transformaram num quarteto, deixando para trás a aura artesanal, porém charmosa, que caracterizava a sua obra até então.
Cosmic Sounds é um disco pesado e denso, que cobre o ouvinte com um frio manto espacial e o embala ao longo das eternas trevas cósmicas. É composto por quatro longas peças instrumentais, aparentemente indistintas entre si, mas que se desdobram em subtis nuances. The Dead Cosmonaut avança, em constante propulsão, como nave desgovernada a orbitar o vazio. O ritmo é árido. As guitarras, fustigantes.
Lunatic Moon recupera os Hawkwind da fase mais abrasiva - por alturas de Doremi Fasol Latido - e engole-nos numa espiral de guitarras minimais, ritmos hipnóticos e apontamentos electrónicos que vibram como flashes luminosos num escuro caminho.
The Giant Orbit é a peça central de Cosmic Sounds. Tema colossal, é dominado por um riff de guitarra circular e penetrante, ritmos que variam entre o arrastado e o marcial, e a subtil mas omnipresente ornamentação electrónica, que povoa o disco e acentua o psicadelismo gélido da sonoridade.
A fechar, Sleeping Moon acentua a atmosfera desoladora contemplada ao longo de todo o disco. Move-se lentamente, em ritmo funéreo, e as notas da guitarra caem como elegíacas gotas de cristal.
Cosmic Sounds é, acima de tudo, o trabalho de um devoto. De um purista que almeja homenagear as suas raízes musicais e, dessa forma, sentir-se mais próximo e comungar do seu universo. Nico Seel conseguiu tal feito aqui, exemplarmente. Pode sentir-se orgulhoso.

Kosmische Kosmetik LVI

 

O nome não podia ser mais óbvio e, no entanto, soa descaradamente a lugar-comum: Krautwerk. Bebe do movimento musical alemão e de um dos seus grupos seminais. Trata-se de uma one man band criada por Nico Seel, projecto essencialmente artesanal que tem debitado discos em cadência constante desde 2014. 
Além dos Kraftwerk como óbvia referência, o músico germânico presta reverência aos Neu!, e aos Can ao longo dos 7 álbuns lançados até à data, sendo o responsável pela execução de todos os instrumentos que compõem a sua tapeçaria sonora. Todas as obras apresentam semelhanças em termos de forma e conteúdo, constituindo peças quase académicas na forma como estudam e depuram o núcleo da sonoridade austera, motorizada, mas igualmente melódica e emotiva, encapsulada no melhor Krautrock.
1971 é o nome do primeiro álbum de Nico Seel sob o pseudónimo Krautwerk. Explorá-lo auditivamente é uma experiência deveras desconcertante, porém fascinante. Dir-se-ia estarmos perante um disco perdido dos Neu!, gravado algures entre Neu!2 e Neu!75, que ficou conservado em âmbar numa cave escura e foi milagrosamente redescoberto em 2014.
Ao longo de seis peças, somos transportados por um maravilhoso mundo de guitarras reverberantes, ritmos motorik, melodias intrusivas e constantes momentos de deleite abandónico.
Os temas que compõem 1971 não têm título, somente um número. Provavelmente porque o álbum deve ser ouvido como ou todo, exercendo, dessa forma, o seu poder hipnótico e físico. Tal como o melhor dos Neu!, este disco aponta miras ao cérebro e ao corpo em simultâneo, alimentando ambos por igual e convidando a um escapismo sedutor e sem efeitos perniciosos.
Em adição aos seis poderosos e irrepreensíveis temas originais de 1971, as novas edições do álbum contêm mais dois temas, igualmente sem nome e identificadas como VII e VIII. Pese embora apresentarem uma toada mais agressiva e decorada por elementos electrónicos, ambos apenas ajudam a prolongar o prazer sensorial dos apreciadores de tais sonoridades.
Pode ser uma pastiche descarada dos Neu!. Pode ser uma respeitosa homenagem ao duo composto pelo malogrado baterista Klaus Dinger e o guitarrista Michael Rother. Pode ser ainda uma tentativa de replicar a sonoridade dos mesmos em pleno século XXI. Sendo isso tudo, ou nada disso, 1971 é um absoluto deleite.

20 de janeiro de 2021

Kosmische Kosmetik LV

 

Da fornada de projectos que compõem a nova vaga do Krautrock, os Electric Orange ocupam lugar de destaque. Formados em 1992, lançaram, até à data, mais de uma dezena de álbuns, todos revestidos de considerável consistência.
As influências da banda são óbvias e assentam nos cânones omnipresentes do género. Contudo, além de elementos electrónicos derivativos dos Tangerine Dream ou da complexidade rítmica repetitiva dos Can, denota-se a presença subtil de laivos neo-psicadélicos, presentes em grupos como os Ozric Tentacles ou os Loop.
É difícil apontar um pináculo na perene discografia dos Electric Orange. Não obstante, Volume 10, álbum editado em 2014, merece especial destaque.
Desde logo, evidenciam-se perante o melómano mais atento as referências aos Black Sabbath, embora a banda germânica não siga as pisadas dos mestres metaleiros. O título do álbum pisca o olho a Vol. 4, quarto disco da banda de Birmingham, e os títulos dos temas envolvem estranhos jogos de palavras com clássicos Sabbathianos como Paranoid (aqui adulterado para Paraboiled), Snowblind (transformado em Slow Bind) ou Sweet Leaf (aqui denominado Suite Beef).
Se a música presente em Volume 10 não é, de todo, reminiscente de tendências Heavy-Metal, revela uma aura sombria e doses generosas de grooves penetrantes e obnubilantes. A toada é pulsante e constante ao longo do disco, cujas oito peças parecem unir-se simbioticamente, revelando pontuais trechos de destaque.
A parafernália instrumental é extensa, conjugando violino e bandolim com Moog e Mellotron, entre outras promiscuidades sónicas. 
Paraboiled inicia as hostilidades num lento torpor ritualista, quase tribal, que aumenta de intensidade no tema seguinte - Slowblind. Symptom of the Mony Nurse projecta a guitarra para primeiro plano, a qual investe por entre teclados serpenteantes e desemboca em Suite Beef, devaneio em animação suspensa num vácuo escuro, porém etéreo. A vaga melodia hipnótica cola-se à peça seguinte, A Tuna Sunrise, onde guitarra acústica e Mellotron cintilam na escuridão.
Behind the Wall of Sheep retorna aos ritmos circulares e insistentes do início, induzindo ao transe e ao abandono, elevando-se tempestuosamente, para depois cair num murmúrio arrastado, resgatado por ecos electrónicos. Seven and Smell é um interlúdio evanescente, coberto por uma batida marcial. Segue-se Worn Utopia, tema que encerra o disco de forma solene e sombria, dominado por rasgos de improviso que se extinguem no ritmo esquelético e no órgão inerte que anunciam o fim.
Volume 10 é para ser consumido de uma assentada. Mais que um disco, é uma viagem musical, uma longa e estranha trip, que prova que a era dourada do Krautrock não se extinguiu na década de 70 do século XX e ainda pode ser reavivada.

8 de fevereiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIV

Resultado de imagem para adelbert von deyen atmosphere
Adelbert von Deyen foi muitas vezes acusado de ser um clone do seu conterrâneo e contemporâneo Klaus Schulze. Pese embora a carreira do primeiro tenha arrancado quase uma década após o despontar do segundo, as semelhanças musicais e estéticas são notórias.
Sternzeit e Nordborg, álbuns editados, respectivamente, em 1978 e 1979, são obras que nos remetem de imediato para o imaginário de Schulze, quer pelo estilo composicional, quer, inclusivé, pelo pastiche flagrante das suas clássicas e reconhecíveis capas.
Porém, apesar da homenagem confessa e do resgate da traça original do mago electrónico berlinense, é possível encontrar pontos de ruptura e diferentes azimutes na música de Adelbert von Deyen.
Enquanto Sternzeit mergulhava na escuridão cósmica e Nordborg revelava um hermético isolamento, o terceiro disco - Atmosphere, de 1980 - abre espaço à luz e deixa-se contaminar por aragens menos rarefeitas e mais expansivas, onde o ritmo assume um papel secundário, mas assertivo.
Time Machine franqueia as portas em cadência motorik e abre alas a uma melodia serpenteante, durante 5 minutos que ombreiam com o melhor dos Neu! e dos Kraftwerk.
A belíssima Silverrain expande a paleta e deixa-se contaminar por bacilos progressivos. Contemplativa e sedutora, a teia sonora expande-se languidamente, evocando reminiscências do psicadelismo dos Pink Floyd e do neoclassicismo progressivo dos Eloy.
Por último, o tema-título e pièce de résistance do disco. Atmosphere é uma peça colossal, que ultrapassa os 30 minutos de duração e se subdivide em 8 fragmentos, oscilando entre a expansão cósmica, a solenidade gótica e a hipnose caleidoscópica. Imensa e ambiciosa, sem nunca resvalar para a banalidade e a redundância, esta composição pode muito bem representar o fim de uma era. Os anos 80 despontavam e a música electrónica começava a descer à Terra, preocupando-se mais com a dança dos corpos humanos, em detrimento da dança dos corpos celestes.
Adelbert von Deyen continuou a produzir discos até ao século XXI - faleceu em 2018 -, progressivamente contaminados pelas tendências do presente e sem a audácia sonhadora do passado. Atmosphere ficará registada, muito provavelmente, como a sua obra de referência.

29 de janeiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIII

Resultado de imagem para michael hoenig departure from the northern wasteland
Previamente à sua incursão a solo, Michael Hoenig militou em dois dos colectivos mais míticos da música germânica: Agitation Free e Tangerine Dream. Aos primeiros, adicionou às guitarras bluesy e espaciais um manto de electrónica lânguido e hipnótico; nos segundos, contribuiu para alicerçar a estrutura cósmica e melódica adotada em meados de 70 e que nunca mais foi abandonada.
Departure From the Northern Wasteland, primeiro álbum de Hoenig, editado em 1978, acaba por conjugar essas duas facetas numa viagem sonora atmosférica, refinada e envolvente.
O disco abre com o tema-título, uma peça extensa - mais de 20 minutos -, preenchida por sequenciadores em cadência e arpejos sintéticos. O resultado é um longo transe contemplativo, mas nunca soporífero, revestido por uma melodia na veia dos melhores clássicos dos Tangerine Dream. Ideal para mover o cérebro sem mover o corpo.
Hanging Garden Transfer prossegue a travessia, mas acelera a velocidade. A teia melódica adensa-se e torna-se mais pungente e urgente. O corpo é chamado a reagir e é impossível não invocar um passeio por uma qualquer autobahn que atravessa as terras desoladas do Norte mencionadas no título do disco.
A toada muda com a lenta ondulação que percorre Voices of Where, interlúdio minimal ao qual é acrescentado uma voz feminina em tom de abstracção e que resulta como um mantra despojado e dolente. Em contraste, Sun and Moon encerra o álbum de forma elevada e radiosa. Uma melodia luminescente e uma baforada de liberdade percorrem a peça. Como o regresso ansiado a um sítio do qual já sentíamos saudades.
Departure From the Northern Wasteland é considerado um dos melhores exemplos da escola berlinense de electrónica, possuidor de um papel preponderante na evolução do género e na sua gentrificação. Embora sintamos o futuro projectar-se nos meandros das suas paisagens electrónicas, acaba igualmente por ser uma obra vincadamente emocional e intemporal, à qual se retorna pelo prazer da nostalgia.

23 de dezembro de 2017

Kosmische Kosmetik LII


Image result for gam 1976
Em 1976, o krautrock evidenciava um declínio no seu florescimento. A maior parte dos nomes que catapultaram o estilo para o seu acme criativo encontravam-se extintos ou atravessavam fases de menor lampejo artístico e inspiração.
Todavia, à margem dos nomes que ajudaram à expansão da vertente mais vanguardista e arrojada do rock alemão, certos grupos e individualidades entendiam ter ainda algo a acrescentar a um lote artístico já digno de destaque na música mais original e influente do século XX.
Günter Schickert, Axel Struck e Michael Leske eram três desses idealistas/inconformados, que decidiram reavivar a velha chama e continuar a espalhar brasas pela música germânica. Com a inicial de cada um dos seus nomes selaram o projecto que os tornou num dos mais radicais nomes de culto do género: GAM.
O primeiro dos dois álbuns editados pelo grupo - simplesmente intitulado 1976 - é uma obra endiabrada e extrema. Criada a partir de três improvisações em estúdio, consegue ir mais além das excursões lisérgicas, espaciais e hipnóticas encetadas por Ash Ra Tempel ou Guru Guru, a título de exemplo.
O primeiro tema, GAM Jam, abate-se sobre o ouvinte como uma borrasca sem tréguas, arrastando-o para a dimensão paralela onde se desenrola, sem esperanças de regresso. Seja qual for a substância que inspirou o trio, a qualidade não deixa margem para dúvidas...
Apricot Brandy deixa para trás a toada ciclónica e deambula por caminhos sombrios e labirínticos. O ritmo é opressivo, a guitarra tensa, a voz paranóica. A produção rude e artesanal torna o tema ainda mais agressivo, mas há algo que nos puxa e nos impele a continuar a desbravar estas cavernosas galerias.
Für Elise und Alice é a queda final no abismo demencial que se escancarou perante nós logo ao princípio. O que começa por ser uma desconstrução perversa da clássica peça para piano de Beethoven evolui para um devaneio rock fora de órbita que os Cosmic Jokers não desdenhariam. Fustigante e fascinante, a peça apodera-se do ouvinte sem misericórdia e o som crú e pouco polido acentua a veracidade e a intencionalidade do monstro que se faz ouvir.
1976 não é um disco exemplificativo do lado mais congregacional do krautrock, nem sequer da qualidade técnica ou melódica da música germânica. É preferível assumi-lo e consumi-lo como um retorno ao seu inconsciente primordial, pagão e puro. 


Kosmische Kosmetik LI

Image result for grobschnitt rockpommel's landRockpommel's Land será, muito provavelmente, o ponto de total convergência entre o comummente denominado krautrock e o rock progressivo. O quarto álbum dos Grobschnitt, editado em 1977, depura liminarmente o estilo musical que o colectivo alemão abraçou desde o início, inflectindo para uma riqueza de formas e arranjos que o tornou um caso sério de culto para os amantes dos desvios mais sinfónicos e utópicos do rock.
O disco padece de uma temática pontualmente transversal às obras do género: o álbum conceptual. Narrativas carregadas de momentos épicos e idealistas, fora da realidade ou demasiado absurdos para serem levados a sério. Nesse aspecto, Rockpommel's Land  não constitui excepção. Senão, vejamos a história que encerra: Um rapaz, chamado Ernie, sedento de fantasia, estabelece amizade com um ser alado gigante chamado Maraboo, e ambos partem numa jornada conjunta que os fará conhecer o Bem e o Mal. Tolkien sorri, Pratchett cofia a barba, mas o melómano franze o sobrolho com desconfiança. Porém, pode ficar descansado. Por mais estapafúrdia que a narrativa seja, a música que lhe serve de base é algo que roça o sublime. E ainda bem, pois é isso que perdura.
Ernie's Rise, tema que principia o disco, fá-lo sem piedade. Na sua melodia luminescente, algures entre Mike Oldfield e os Yes mais dinâmicos, as magistrais variações dos cinco primeiros minutos do tema conseguem arrebatar o ouvinte mais aguerrido. Os restantes cinco fundamentam o postulado.
Severity Town arranca em toada infanto-juvenil, cristalina e bucólica, enveredando aos poucos por uma complexidade assertiva que não lhe retira qualquer graça ou poder. Anywhere é uma balada pastoral e orvalhada, que nos fecha na sua ostra solicitando recolhimento e oferecendo refrigério a meio da jornada.
Rockpommel's Land, a canção, fecha a edição original do disco e constitui, certamente, o seu ponto alto. Ao longo dos seus vinte minutos de duração, o tema consegue manter viva a chama artística, imiscuindo-se por diversas variações sem nunca perder o azimute. Os minutos finais são verdadeiramente espantosos, com a progressiva implosão da energia a dar lugar a uma longa, crepuscular e arrebatadora coda.
Rockpommel's Land tem sido alvo de várias reedições ao longo dos anos, mas merece especial destaque a ocorrida em 1998, especialmente pela faixa extra que encerra. Trata-se de Tontillon, um belíssimo e envolvente tema instrumental, que aparenta ser o prolongamento de um excerto de Ernie's Rise, mas que ganha vida própria e uma gravitas que chega a ser terapêutica. Excelsa é a  prestação do baterista Joachim Ehrig, que recuperou esta peça no seu terceiro trabalho a solo e já sob o pseudónimo Eroc.
Ao longo da sua carreira, os Grobschnitt sempre se pautaram pela liberdade criativa e uma certa forma humorística de abordar a música. Assim sendo, fica sempre no ar a dúvida se os devaneios estilísticos de Rockpommel's Land  deverão ser levados excessivamente a sério ou se constituem apenas mais um tentáculo criativo da banda germânica. Seja como for, enquanto testamento das suas capacidades composicionais e interpretativas, este continua a ser o seu porta-estandarte.

Kosmische Kosmetik L

Image result for michael bundt neonA capa de Neon, segundo álbum do alemão Michael Bundt é, literalmente, de fugir. Algures entre o futurismo kitsch e o erotismo azeiteiro, o invólucro da obra não deixa antever bons augúrios para a música que encerra. Quem o levou para casa de forma incauta e sem pré-aviso no ano de 1979, esperando uma soul máscula a la Tom Jones ou uma histérica dose de hard rock, viu certamente os seus intentos defraudados.
A capa de Neon é, efetivamente, o pior elemento do disco, que constitui uma peça curiosa e de elevado interesse arqueológico no que toca à era dourada da música electrónica em geral e germânica em particular. O que está lá dentro poderia funcionar perfeitamente como banda-sonora para um Blade Runner dirigido por Russ Meyer. Música nocturna e lânguida, urbana e lasciva, rítmica mas pouco convidativa à dança, preferindo abrir caminhos para a imaginação e a introspecção. O tema-título é disso prova, abrindo o álbum de forma panorâmica, porém minimalista, com a sua melodia expansiva a penetrar lentamente cada poro auditivo. Michael Bundt leva a cabo uma récita sobre as luzes da cidade, a sua frieza, o seu fascínio, os vícios que disfarçam. A entrega lembra John Cale. O que é sempre bom. Flashes de guitarra eléctrica e saxofone invadem a camada minimal do tema, como interlúdios luminosos sobre a toada penumbrenta.
O registo dolente e sombrio prossegue com This Beautiful Ray Gun, modulado por trechos que parecem saídos de um qualquer lobby de hotel de terceira  categoria. Future Street No. 7 assemelha-se a um funk em câmara lenta, esquelético e frio na camada electrónica que o cobre, mas envolvente na rendição vocal de Bundt. Em conjunto com o tema-título é a peça que mais aguentou a erosão do tempo, mantendo intacta a sua traça futurista.
Flying in a Thunderstorm soa quase a elegia, exalando uma inesperada e plástica melancolia. A atmosfera glacial é somente interrompida por intermitentes arpejos de teclas e flauta, que acabam por carregar o tema até à sua conclusão. Death of a Friend é uma estranha e tétrica catarse, assente em guitarra e piano rotativos, que coloca Michael Bundt novamente em plano recitativo e parece saída de um conto de Edgar Allan Poe. Pelo meio ficam dois exercícios de menor intensidade, mas que contribuem igualmente para a coesa desconexão de Neon: o movimento em suspensão de Welcome the Astral Dancer e Midnight Orange Juice, breve exercício de electrónica cósmica vergastada por guitarra. Em suma, um curioso artefacto musical, que merece estima e contida devoção.


15 de janeiro de 2017

Kosmische Kosmetik XLIX

Die Grüne Reise ou The Green Journey foi o primeiro álbum produzido pelo guitarrista Achim Reichel após o abandono dos popularíssimos (pelo menos na República Federal Alemã) The Rattles. Esta banda chegou a ganhar o epíteto de Beatles germânicos devido às similaridades como os Fab Four de Liverpool, mas sempre mais no estilo que na substância. O agrupamento que Reichel reuniu para iniciar a sua nova trajectória musical não reteve, certamente, tais paralelismos, a não ser, talvez, uma saudável obsessão por Tomorrow Never Knows ou Revolution nº 9. Denominados A.R. & Machines, constituem um dos colectivos mais originais, inovadores e interessantes das franjas do rock teutónico mais arrojado.
Die Grüne Reise foi primariamente idealizado como uma banda-sonora para um filme imaginário e parece ter o poder de penetrar em todos os neurónios do ouvinte em simultâneo. Ataca em todas as frentes como onda que desfaz castelos de areia, não deixando destroços à sua passagem, mas sim novas geometrias mentais. Flui em registo contínuo, sem pausas, num caudal sonoro que aumenta e diminui de intensidade, sem nunca perder a sua essência pulsante e encantatória.
A sonoridade de Die Grüne Reise assenta num cocktail de rock enraizado nos blues e uma carga psicadélica capaz de implodir qualquer cérebro mais incauto. É, em suma, um disco sensitivo e policromático, que nos envolve mental e fisicamente. A abertura com Globus (Globe) dá-se num crescendo rítmico repetitivo e guitarras espiraladas que culminam em espasmos psicadélicos, tudo no espaço de três minutos, e que desembocam no hard rock insinuante e alucinogéneo de In the Same Boat (Im Selben Boot)Schones Babylon (Beautiful Babylon) é o ponto de convergência entre ambas e, por esta altura, a contaminação sonora já se consumou.
I'll Be Your Singer - You'll Be My Song (Ich Bein Dein Sänger, Du Bist Mein Lied) envereda por guitarras acústicas e percussão orgânica e aproxima-se dos territórios trilhados pelos Can. Body e A Book's Blues são dois intróitos que acrescentam bizarria à já hiperactiva toada do álbum, sendo a primeira uma colagem de guitarra, percussão e voz e a segunda um exercício de blues estranhamente convencional.
Als Hätt Ich das Älles Schon Mal Gehesen (As If I Had Seen This All Before) retoma o curso sonâmbulo da viagem (trip?) verde, enaltecendo a paisagem sónica com electrónicas transcendentes. Cosmic Vibration não se afasta do rumo e as guitarras envolvem-nos em ecos vertiginosos, por entre o ritmo e a electrónica fustigantes. Come on People arrasta consigo ecos do rock da West Coast americana, calorosos e vibrantes e a jornada chega ao fim em Wahrheit und Wahrscheinlichkeit (Truth and Probability). Aqui perdem-se quaisquer elos de ligação com a realidade e o tema move-se fora da gravidade, entre vozes fantasmagóricas e absurdas - que poderiam ter sido conjuradas por Ligeti - e electricidade em ebulição. Alucinante, distorcida e desafiante, a peça parece ser um negativo da restante toada do álbum, voltando-nos para uma surreal introspecção.
Die Grüne Reise é, em suma, um dos grandes clássicos da primeira fase do krautrock. Uma obra inovadora, que ainda hoje soa muito à frente do ano em que foi editada (1971) e cuja influência não pode ser desdenhada. Consta, inclusive, que Brian Eno se inspirou nela para a sua própria obra-prima Another Green World, pelo que não faltam razões para dar a Die Grüne Reise o realce merecido.
De salientar igualmente que a produção aqui abordada diz respeito à reedição do disco levada a cabo em 2007. O alinhamento é ligeiramente diferente da primeira edição em vinil, considerando-se, contudo, definitivo. Esta versão remasterizada do álbum apresentou-se acompanhada de um DVD, fazendo jus ao objectivo primário da obra: um filme produzido por estudantes universitários alemães e que permite, finalmente, experienciar Die Grüne Reise em toda a sua plenitude.


             


1 de março de 2016

Conferência Krautrock

Interessante prelecção acerca das raízes e evolução do krautrock, conduzida pelo académico francês Dominique Fellmann...


                      


                      

29 de fevereiro de 2016

Open Can



Provavelmente um dos concertos mais importantes da história do rock vanguardista e de laivos experimentais, a prestação ao vivo dos Can no lendário festival de Soest em 1970 continua a ser um documento assombroso. Parecemos assistir ao parto de uma nova forma de música, sendo que, ainda hoje, o poder encantatório e o arrojo artístico destes sons não perderam um suspiro do seu fôlego inovador. 
Estamos perante a formação clássica do grupo e é pouco menos que incrível assistir ao estranho entrosamento destes músicos e captar os sons únicos e misteriosos que emanam dos seus instrumentos. Felizmente tudo isto está disponível e a dádiva tem um valor incalculável.


       

Gomos Cósmicos






A Internet continua a ser, pontualmente, um mar de pérolas escondidas. A prová-lo estão peças raras,
de origem obscura e sem data definida como Rendezvous with Tangerine Dream. Este documento, na sua esmagadora maioria constituído por excertos musicais reunidos durante a primeira - e clássica -década de existência do grupo germânico, acaba por ser uma improvável mas excelente porta de entrada no seu imaginário.
Da mítica Bath Tube Session, captada em Berlim no ano 1969 a excertos do histórico concerto na Catedral de Coventry em 1975, esta curiosa colectânea serve como tónico para a memória e recupera a importância que os Tangerine Dream tiveram na génese e evolução da música electrónica.



                

26 de dezembro de 2015

Compêndio Krautrock




Future Days, subtitulado Krautrock and the Building of Modern Germany, será, muito provavelmente, a obra mais definitiva lavrada até à data no que toca à revolução rock alemã. Exaustivo, revelador e continuamente interessante, o livro do jornalista britânico David Stubbs constitui um misto de trabalho arqueológico e paixão devota pela arte que narra.
Ao longo de quase 500 páginas, Stubbs dedica-se, sobretudo e sensatamente, aos nomes mais marcantes e seminais da vanguarda musical germânica de finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 do século passado. Future Days acaba por ser, assim, uma obra direccionada a neófitos nesta matéria, não obstante conter episódios obscuros e sumarentos que farão as delícias dos maiores aficionados do género e que a tornam uma preciosidade incontornável.
A obra principia com uma epifania: um evento artístico e comunal, em que música, filmes e ativismo colidem e se sobrepõem, e no qual um espírito de renascimento parece brotar de cada gesto e de cada nota. Tal evento decorreu na cidade rural de Unna, oeste da Alemanha, em 1970. Stubbs relata a sua visualização de um documento de 3 horas, de acesso restrito, granjeado pela cadeia televisiva WDR. Nothing better happened in the world that night, escreve o autor, e acreditamos ele. O resto dos comuns mortais, por ora, apenas pode ter ideia do que aconteceu através de pequenos vislumbres como este:

                             

Desta epifania fazem parte os Kraftwerk (aqui na sua fase embrionária e irreconhecível perante a estética futura) e os Can (aos quais Stubbs - pertinentemente - rouba a canção que dá título ao livro). Ambos são devidamente escrutinados e homenageados com lucidez apaixonada. A eles juntam-se exercícios sempre elucidativos e fascinantes, quer do ponto de vista artístico, quer do contexto sócio-cultural de onde surgiram e se implementaram. Neu!, Tangerine Dream, Faust e outros nomes maiores do krautrock (esse epíteto que continua a predominar para revelar a estranheza e a ausência de rotulagem para a música sem convenções) dominam o grosso da obra. Porém, movimentos paralelos como a alucinose espacial dos projectos conjurados pelos Cosmic Couriers, bem como bandas menos divulgadas, como os Embryo ou os Kraan, marcam igualmente presença e reforçam o carácter enciclopédico de Future Days.
A terminar, capítulos dedicados à Neue Deutsche Welle (o equivalente alemão ao pós-punk) e reflexões sobre o presente e o futuro da música, não deixam cair o pano sobre a arte descrita nas páginas precedentes. Assumem a sua herança e a forma como um punhado de grupos alemães - saudavelmente insurrectos contra a herança cultural e os costumes vigentes na sua época - mudou e imprimiu um cunho indelével na criação musical do século XX.
Future Days acaba, igualmente, por ser uma obra que documenta a reinvenção de uma nação. Através de uma geração que renega o passado ao mesmo tempo que deseja manter a sua individualidade. A música acabou por ser apenas uma parte do curso da história. Mas não mudou somente uma nação. Mudou o mundo.

24 de novembro de 2015

Kosmische Kosmetik XLVIII

Jeronimo. Nem o líder do PCP (o que hoje não deixaria de vir a propósito), nem propriamente uma banda do espectro genuíno do krautrock. Talvez o epíteto de banda mais americana do rock alemão seja o que melhor defina este trio, surgido em finais dos anos 60 e criador de três obras a perseguir e capturar.
De todas, a primeira será a mais estranhamente aprazível e deliciosamente acessível. À primeira audição, é quase impossível avançar com a teoria que o rock possante e de laivos psicadélicos que se eleva, fumegante e viscoso, de Cosmic Blues, seja engenho germânico. A voz de Rainer Marz não deixa cair a máscara que revele um sotaque teutónico, assim como a sua guitarra rola e flui com gingares pélvicos. Da mesma forma, o baixo de Gunnar Schäfer e a bateria de Ringo Funk investem em sintonia como dois panzers artilhados de groove. O resultado deste combo bem oleado e atrevido é, assim, um disco de excelente rock musculado e solto, com tanto de orelhudo como de imponente.
Um primeiro vislumbre sobre a capa e os senhores hirsutos que a decoram projecta-nos para um imaginário que cruza os Blue Cheer com os Black Sabbath. Tal não será descabido, pois os Jeronimo apresentam-se com a energia dos primeiros e o peso-pesado dos segundos. Todavia, o seu psicadelismo não chega nunca a ser lisérgico e Belzebu não parece habitar estas paragens. O termo proto-metal assenta-lhes muitíssimo bem, mas as influências são bem mais abrangentes, dos Kinks mais incisivos em News, aos blues pomposos dos Cream em The Key, passando por um Bob Dylan em versão prazenteira em The Light Life Needs.
Os temas cativantes sucedem-se, tornando Cosmic Blues uma obra de coerência e consistência contagiantes. Apesar do rock ser hard, as vibrações são boas e luminosas. A melhor prova encontra-se nos dois singles do álbum, que causaram relativo impacto aquando da sua edição em 1970: Na Na Hey Hey e He Ya, canções celebratórias e convidativas a um discreto mas veemente headbanging.
A partir daqui, é só deixar que estes alemães nos ponham a mexer, com maior ou menor intensidade, através da combustão constante de So Nice To Know, Let The Sunshine In ou Never Goin' Back, temas que parecem colocar a Califórnia na Baviera.
Cosmic Blues, é, acima de tudo, um disco de feel good music. Um álbum de rock despretencioso, mas forte e extremamente lúdico, cujos 40 minutos de duração constituem uma curta mas eficaz panaceia contra dias cinzentos e outros tormentos. A acompanhar com cerveja.

17 de dezembro de 2014

Noite Palaciana

   


Provavelmente um dos mais antigos programas musicais da Europa, o Rockpalast aquece o continente a partir da Alemanha desde 1974. Ainda em actividade, a decana emissão da WDR revelou-se pioneira na sua mescla entre divulgação da vanguarda musical e palco de nomes consagrados. De David Bowie a John Cale, passando por Peter Hammill ou Tom Waits, muitos foram os artistas e bandas a produzir nesse palco performances memoráveis e que o foram tornando o objecto de culto que hoje constitui.
Ao longo das suas quatro décadas, o tempo de antena do Rockpalast foi maioritariamente colocado ao serviço de bandas externas à Alemanha. Porém, em 2006, foi dada a oportunidade aos santos da casa de fazerem milagres, numa emissão dedicada exclusivamente à música teutónica.
Apesar de alguns tiros ao lado e da sonoridade datada de alguns dos intervenientes, a Deutschrock Nacht compila de forma fascinante a evolução do rock alemão, desde os dias do puro decalque das tendências americanas e anglo-saxónicas até à emergência revolucionária da nova e transformativa vaga do que se popularizou como krautrock.
Trata-se de uma maratona musical de quase cinco horas, apelativa para acólitos, instrutiva para neófitos. Uma obscura curiosidade com selo de qualidade e uma prova de como é possível agradar a várias audiências sem perder a identidade. O Palácio do Rock está longe de ruir.


                              

                              

                              


16 de dezembro de 2013

Kosmische Kosmetik XLVII

A missão dos irmãos Seesselberg, Eckart e Wolf-J., começou por ser académica: mostrar ao mundo as capacidades e potencialidades dos sintetizadores, extraterrestres electrónicos para a maioria dos mortais dos inícios dos anos 70. Essas demonstrações levaram a que o duo alemão editasse para a posteridade um disco feito das suas próprias pirotecnias cibernéticas, algo que deve ter afugentado os melómanos mais incautos e classicistas da época mas que detém hoje uma imagem quase paterna para a descendência da música electrónica mais audaz e não conformista.
Surgido em 1973, o álbum Synthetic 1 arranca como o despertar de um sonho mau dos Kraftwerk. Uma sucessão de agudos alarmantes que põe os sentidos em alerta antes de se afundar num charco de bleeps e estática. A esta Overtüre segue-se uma série de peças de curta duração, que se assemelham a processadores com vida própria, desesperados por comunicar. A melodia é quase inexistente e, quando surge, é fria e descarnada, um fio conectado algures, perdido entre os demais. Como em Speedy Achmed ou no denso e tenso Was Dir Heute Freude Macht, Das Verschieb Nicht Über Nacht!.
O tema de maior duração tem um título à altura: Die Menschen Sind Glücklich, Sie Kriegen, Was Sie Begehren, Und Begehren Nichts, Was Sie Nicht Kriegen Können - Laubsägebastler, Briefmarkensammler Und Brieftaubenzüchter Bilden Das Rückgrat Der Menschheit. Mas são palavras a mais na idade dos porquês. A música é abstracta, elegíaca e foge da luz. Uma marcha fúnebre electrónica em subliminar crescendo até ao enterro final. Phönix aproxima-se da precedente em termos de duração, mas a monotonia escura e fria dá lugar a um pulsar constante, com picos e quebras de intensidade. Como ser largado na escuridão do espaço, ou passear sozinho pela desolação lunar.
Algures entre Stockhausen e Conrad Schnitzler no passado e Merzbow e os Autechre no presente, a fraternidade Seesselberg nunca passou da obscuridade nem do academismo. Synthetic 1 perdeu-se na bruma dos tempos e tornou-se um artefacto mais curioso que musical. No entanto, continua a haver um bizarro e apelativo charme neste disco. Como nas aulas a que assistíamos na faculdade só pelo prazer de ouvir o professor e sabendo que aquela matéria nunca teria aplicação prática.

                                 

11 de dezembro de 2013

Grande Lata



A principal característica dos Can sempre foi a espontaneidade. O próprio Holger Czukay, baixista e mentor da banda, chegou a afirmar que as composições e as actuações ao vivo do seu colectivo derivavam de criações instantâneas. E foi o improviso e o constante experimentalismo que fizeram do grupo germânico, mais que um dos porta-estandartes do krautrock, um dos projectos mais vanguardistas, subversivos e influentes do rock inteligente. Serão, juntamente com os Velvet Underground, a maior banda de culto de sempre. Mas enquanto os nova-iorquinos viram a sua projecção aumentar ao longo do tempo, a banda de Colónia sempre se moveu nas sombras, a sua música mais fácil de mencionar para impressionar que de ouvir para apreciar.
A formação clássica dos Can que, para além de Czukay, incluía Damo Suzuki, Michael Karoli, Irmin Schmidt e Jaki Liebezeit editou alguns dos discos mais futuristas e estratosféricos da década de 70. A música de Tago Mago, Ege Bamyasi ou Future Days é estranha, cerebral, hipnótica, tão imediata como depurada na sua estrutura, tão variada como repetitiva em termos rítmicos. É a mais imperativa de ouvir, ter e venerar, se bem que os Can nunca foram desinteressantes ou vulgares. A odisseia iniciada com o imenso e intenso Monster Movie e terminada com Rite Time está repleta de passos em frente e estratégias progressistas.
Can - The Documentary propõe uma história visual da banda. Parte integrante da exaustiva Can Deluxe Box DVD editada em 2005, é o filme ideal e definitivo para conhecer os Can para além da música. Filmagens raras e históricas, excertos de antológicas actuações ao vivo e muitas entrevistas preenchem a hora e meia de imagens, que passa demasiado depressa. Apesar de tudo, o documentário condensa o essencial da singular carreira de um dos colectivos mais geniais de sempre, que não só colocou a Alemanha no mapa da música influente como revolucionou para sempre os preceitos do rock como forma de arte.

                                 

27 de dezembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLVI

Dieter Moebius foi sempre considerado a face mais agreste dos Cluster. A metade mais arrojada e experimental do duo, acrescentando uma paleta de escuridão à luminosidade melódica do seu par Roedelius. Para além desta mítica dupla electrónica, o músico alemão operou em vários projectos e colaborações antes da sua primeira aventura a solo. Harmonia, Liliental e dois discos seminais em parceria com Conny Plank são algumas das referências inescapáveis que antecederam Tonspuren, álbum de 1983 totalmente moldado pela sua mão.
Apesar das semelhanças óbvias com a abstracção electrónica em miniatura dos Cluster mais tardios, Tonspuren possui uma forte identidade própria. A personalidade vincada de Moebius, deixado sozinho, brincando e experimentando com as suas inspirações e intuições. Como se a carne dos Cluster tivesse sido roída, deixando exposta apenas a carcaça, um esqueleto de ambiências minimais e melodias quebradiças.
É um disco que caminha para a noite. Que pede isolamento e abstracção. Maioritariamente sombrio, começa com esparsos estilhaços de luz e cor. Os três primeiros temas, Contramio, Hasenheide Rattenwiesel, são os que mais se aproximam da estética dos Cluster de Zuckerzeit ou Sowiesoso. Depois o crepúsculo começa a erguer-se lentamente, abafando luz e cor num manto progressivamente cinzento. Transport é veículo subterrâneo que serpenteia por túneis industriais. Nervös faz juz ao nome, destilando paranóia rítmica e melodia opressiva. A tensão prolonga-se na dança com as sombras que é B 36 e culmina no palpitar gélido de Sinister. Surgem pistas para o que seria o advento da techno mais densa e minimal em Etwas e Immerhin é escolástica na forma como mistura polidez estética a estertores colaterais.
Tonspuren significa banda-sonora em português. À la lettre, seria certamente a música ideal para um filme de espionagem a preto e branco passado em Berlim ou na Moscovo da Guerra Fria. Despida de interpretações, é um compêndio da importância e influência de Dieter Moebius nas linguagens electrónicas contemporâneas.

21 de novembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLV

A prolífica carreira a solo de Hans-Joachim Roedelius é plena de bons momentos. Mais ou menos memoráveis, mas sempre com selo de qualidade. E essa caminhada solitária teve início ainda nos tempos em   que o berlinense se movia com audácia e estilo em projectos como os Cluster e os Harmonia.
Foi entre 1973 e 1979 que as peças que compõem Selbstportrait I ganharam vida. E este disco, que deveria ser o primeiro em nome de próprio de Roedelius, acabou por nascer tardiamente, após o magnífico Durch die Wüste e de Jardin au Fou.
Selbstportrait I é o som do músico em introspecção, em relaxamento egocêntrico e despido de artifícios. Minimal, simples, melódica e beatífica, a música patente nesta obra define bem as aproximações de Roedelius à electrónica ambiental, bem mais próximas do seu ocasional colaborador Brian Eno que das texturas mais abrasivas e experimentais dos seus primórdios exploratórios.
Os instrumentos usados, maioritariamente um órgão Farfisa e um sintetizador Revox A77, conferem a Selbstportrait I uma atmosfera de pureza quase virginal e uma proximidade confessional. Música sem filtros, despojada e descarnada, guarda em si o embrião de muitos sons futuros. E quão aconchegante é deixar pensamentos e emoções fluir no suave embalo de In Liebe Dein, Arcona Girlande. Ou estimulante pintar quadros imaginários ao som de micro-sonatas electrónicas como Inselmoos,  Fabelwein ou Halmharfe. Sempre em onírica travessia até ao lullaby final de Minne.
Os auto-retratos de Roedelius continuaram a ser revisitados ao longo da sua existência musical, sendo que o oitavo volume desta série foi editado em 2002. Todos muitíssimo aconselháveis, mas nunca esquecendo que, mesmo com a sua ingenuidade e improviso, não há amor como o primeiro.

25 de outubro de 2012

Kosmische Kosmetik XLIV

Wolfgang Bock é um nome raramente pronunciado quando se fala na escola electrónica alemã, especialmente a berlinense. Este explorador de sons caiu praticamente no esquecimento, mas o seu primeiro disco é um tomo fundamental na enciclopédia da música sintetizada e analógica.
Cycles, de 1980, surge numa altura em que os grandes clássicos do género pareciam estar já editados e serem inultrapassáveis, mas é tudo menos uma revisão decadente da matéria dada.
As comparações com o estilo de Klaus Schulze são, porém, inescapáveis. Ambos comungam da mesma energia planante, da vastidão das paisagens sonoras, da electrónica cósmica e ausente de gravidade. O que Wolfgang Bock traz de novo são fraseados rítmicos que tiram a música da suspensão e a lançam num trilho meteórico. Uma versão algo anfetaminada de Schulze. O tema-título, que abre o disco, define bem esta sonoridade. Arranca em animação suspensa e termina num ritmo pulsante, latejante, de cadente dança estelar. Seguem-se as duas partes de Robsai, a primeira uma delícia física e estimulante de sequenciadores, a segunda uma elegíaca e intensa ode cósmica de curta duração. Changes traz a mudança, para uma melodia luminosa e um ritmo circular, orgânico, que termina às apalpadelas às paredes de um buraco negro.
Stop the World conclui o disco e recupera a cadência hipnótica e a indução ao transe. É um tema que eleva a electrónica cósmica à condição de energizante musical e não ficaria mal numa proto-rave party, salpicada a ácidos e não a ecstasy.
Cycles vale sobretudo por ser uma alternativa mais acessível à caracteristicamente hermética e experimental electrónica germânica sua contemporânea. Mesmo assim, em breve surgiriam as radicais mudanças estéticas trazidas pela década de 80 e este estilo de música foi relegado para um nicho e diluiu-se na paleta berrante desses anos. O epíteto Super Bock não assentaria nada mal a este senhor. Mais que um disco, o fim de um ciclo.