1 de março de 2020

Post-Post-Punk

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Meet Me in the Bathroom - Rebirth and Rock and Roll in New York City 2001-2011, livro da jornalista norte-americana Lizzy Goodman, narra a história de um dos períodos musicalmente mais férteis do século XXI.
Tendo como elemento catalisador o infame 11 de Setembro de 2001, a obra descreve como uma série de projectos e bandas iconoclastas ergueram uma cidade em stress pós-traumático através da música e do seu poder catártico.
Meet Me in the Bathroom ergue-se a partir de mais de 200 entrevistas conduzidas pela jornalista aos nomes que despontavam e, entretanto, se cimentaram como referências do Rock alternativo nova-iorquino.
Perante o negrume histórico envolvente, é impossível não considerar a ascensão de colectivos como LCD Soundsystem, Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Interpol ou Vampire Weekend como elementos reactivos e derivativos do Post-Punk surgido três décadas antes.
Tendo a hipster Brooklyn como epicentro de uma revolução que começou por mudar a paisagem musical da Big Apple para depois contaminar o mundo, esta história fascinante é leitura obrigatória para quem sentiu e escutou in loco a pulsação vibrante desta época, bem como para melómanos neófitos, gulosos por uma boa fatia de sonoridades suculentas.

Bush of Fire

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Lembro-me da dança espectral, do olhar esgazeado e da voz acrobática de Wuthering Heights. Lembro-me da dança sensual, da guerreira bárbara semi-nua e do refrão infeccioso de Babooshka.
Lembro-me da dança vanguardista e dos olhos que cantam Running Up That Hill sem necessitarem de palavras.
Lembro-me das canções que vieram a seguir, sempre distantes, sempre familiares, sempre semelhantes a um abraço feminino - seja erótico, maternal ou amigo. Obras brilhantes que me surpreenderam fora de tempo, como Aerial ou 50 Words For Snow.
Este documentário da BBC relembrou-me tudo. Kate Bush foi a primeira mulher que me seduziu e deslumbrou. E não há amor como o primeiro.



           

28 de fevereiro de 2020

Wörd of Möuth

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The Guts and the Glöry é um documentário de 2005 que retrata a história dos míticos Motörhead. A peculiaridade do filme é que o mesmo assenta, única e exclusivamente, em relatos na primeira pessoa, dos músicos mais importantes da banda britânica.
Rodado maioritariamente num pub - ambiente mais que típico e apropriado -, The Guts and the Glöry mostra Lemmy, Phil Taylor, Eddie Clark e Phil Campbell a narrarem a sua saga de modo informal e pleno de episódios anedóticos.
Particularmente interessante é a forma como Lemmy e Phil Taylor vão ficando progressivamente embriagados ao longo do filme. Mais Rock'n'Roll que isto é impossível. Now watch it!



             

22 de fevereiro de 2020

Sepia Tone Songs


KENNY KNIGHT - CROSSROADS  VINYL LP + DOWNLOAD NEUPerante a capa e o conteúdo de Crossroads - primeira e única obra do norte-americano Kenny Knight -, custa acreditar tratar-se de um disco editado em 1980. Em primeiro lugar, pela pose sonhadora e o look hirsuto a puxar ao hippie do artista; em segundo lugar, pela música, mais próxima dos territórios percorridos pelos Grateful Dead ou Byrds (especialmente Gene Clark) nos anos 60, que da New Wave reinante na altura do seu lançamento.
Contudo, este anacronismo absoluto não prejudica em nada o disco, antes pelo contrário. Crossroads é uma belíssima colecção de canções que descendem directamente da linhagem Country & Folk norte-americana. Canções aparentemente simples e despretenciosas, mas que guardam uma melancolia agridoce e revelam uma mestria composicional que as torna intemporais.
Não existe nenhum tema fraco em Crossroads. Does He Hide, One Down e Carry Me Down são road songs em tons de sépia, que nos transportam para uma imensidão americana evocativa, em igual medida, de liberdade e solidão.
All My Memories, To Be Free e You Can Tell Me I'm Wrong são baladas contemplativas, marinadas num doce tempero psicadélico e destilando emoções em estado puro.
Depois há Whiskey, Country Rock sardónico servido com gelo. E America, canção de amor/ódio ao país do Tio Sam e cujo desencanto latente soa mais actual que nunca.
O tema mais pungente do disco será também aquele que mais destoa da sua toada geral. Jean, uma canção de amor sombria e dolente, cuja guitarra etérea cobre o desespero como um véu transparente.
Nunca saberemos se Kenny Knight seria capaz de repetir o estado de graça que assombra, transversalmente, Crossroads. Ao que consta, a parca atenção concedida ao álbum e o seu fracasso comercial, levaram a que o músico se livrasse das últimas cópias lançando-as para o lixo. Felizmente, a editora Paradise of Bachelors - especialista no resgate de raridades e obras obscuras - procedeu à sua reedição em 2015. Existe sempre tempo para descobrir pérolas musicais. E esta pérola não deixou o seu tempo definido.

21 de fevereiro de 2020

A Sul do Paraíso

Resultado de imagem para slayer south of heavenApós terem distorcido as leis da velocidade do som no vertiginoso e abissal Reign in Blood, os Slayer abrandaram o ritmo. Tal não significa que o defunto quarteto de Thrash Metal norte-americano tenha amolecido. Mudaram somente as regras da agressão.
South of Heaven, o quarto álbum da banda, prossegue o fogo cerrado do seu predecessor, acrescentando-lhe nuances experimentais e recuperando o negrume torturado e a atmosfera pantanosa de Hell Awaits.
A audição de South of Heaven, passados 32 anos da sua edição original, assemelha-se ainda a uma travessia sombria por paisagens em ruínas e lamacentas, debaixo de um céu carregado.
As guitarras pungentes e voláteis de Kerry King e Jeff Hanneman impregnam o disco de riffs demoníacos e grooves monolíticos. A voz de Tom Araya espraia-se, entre o narcótico e o demencial, não carecendo de pirotecnias para escaldar os tímpanos. Mas é, sem dúvida, a bateria de Dave Lombardo que carrega o álbum nos ombros. É impossível resistir à precisão, mestria e intensidade com que Lombardo trata as peles. Qual polvo possuído pelo Demo, será, provavelmente, a melhor prestação de sempre em estúdio de um baterista de Thrash Metal.
Os quatro temas iniciais de South of Heaven estão entre os melhores alguma vez compostos pelos Slayer. A canção que dá título ao álbum é um monolito pesado e arrastado, que parece abrir caminho por um lodaçal denso, em esforço crescente. A música destila decadência e amoralidade.
Segue-se Silent Scream, ataque maléfico, impiedoso e, sem dúvida, o momento alto do disco. Juntamente com o esmagador Angel of Death - de Reign in Blood -, será, inclusivé, a peça mais incisiva e impressionante do currículo da banda. Três minutos imparáveis, que parecem demorar três segundos e que equivalem a um espancamento de três horas, ao qual não temos forças para resistir. Dave Lombardo é colossal, Araya é gélido e as guitarras cortam como estiletes.
Live Undead deixa-nos recuperar o fôlego por breves momentos. Elogio/elegia à loucura, ecoa sonambulamente até ao grito lancinante que nos atira para um precipício em que as guitarras se degladiam psicoticamente e a bateria é uma descarga propulsiva de adrenalina.
Behind the Crooked Cross é o tema mais directo do álbum. Cinicamente melódico (até trauteável), mas sem perder pitada de agressividade, parece antecipar o advento do Stoner Rock.
Mandatory Suicide e Read Between the Lies mantêm a toada lenta (pelo menos nos padrões dos Slayer) e focam a guerra e a religião, temáticas que, além da sanidade mental, contaminam de sobremaneira o universo do grupo.
Ghosts of War e Cleanse the Soul são os temas que mais se aproximam dos ataques relâmpago do passado, com Dave Lombardo a elevar a fasquia rítmica até à estratosfera.
Pelo meio, surge uma versão densa e enegrecida de Dissident Aggressor, original dos Judas Priest e que assenta como uma luva na desoladora ambiência geral de South of Heaven. Tudo termina com o pesado e hipnótico Spill the Blood, onde guitarras acústicas se intercruzam com eléctricas, a bateria é marcial e a voz de Tom Araya soa como um demónio sedutor mas desapaixonado.
Ao que consta, o quarteto não ficou muito satisfeito com o resultado final do álbum, muito graças à maior acessibilidade sónica da produção. Não obstante, South of Heaven acaba por ser a obra mais variada dos Slayer, conjugando em igual medida momentos perturbantes, violentos e introspectivos. Tal como o supracitado Stoner Rock, os alicerces do Sludge Metal começaram a ser erigidos aqui, pelo melhor e mais sólido colectivo da história do Thrash. Pese embora reformado, o seu legado soa mais demencial e pertinente que nunca nestes tempos conturbados.

8 de fevereiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIV

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Adelbert von Deyen foi muitas vezes acusado de ser um clone do seu conterrâneo e contemporâneo Klaus Schulze. Pese embora a carreira do primeiro tenha arrancado quase uma década após o despontar do segundo, as semelhanças musicais e estéticas são notórias.
Sternzeit e Nordborg, álbuns editados, respectivamente, em 1978 e 1979, são obras que nos remetem de imediato para o imaginário de Schulze, quer pelo estilo composicional, quer, inclusivé, pelo pastiche flagrante das suas clássicas e reconhecíveis capas.
Porém, apesar da homenagem confessa e do resgate da traça original do mago electrónico berlinense, é possível encontrar pontos de ruptura e diferentes azimutes na música de Adelbert von Deyen.
Enquanto Sternzeit mergulhava na escuridão cósmica e Nordborg revelava um hermético isolamento, o terceiro disco - Atmosphere, de 1980 - abre espaço à luz e deixa-se contaminar por aragens menos rarefeitas e mais expansivas, onde o ritmo assume um papel secundário, mas assertivo.
Time Machine franqueia as portas em cadência motorik e abre alas a uma melodia serpenteante, durante 5 minutos que ombreiam com o melhor dos Neu! e dos Kraftwerk.
A belíssima Silverrain expande a paleta e deixa-se contaminar por bacilos progressivos. Contemplativa e sedutora, a teia sonora expande-se languidamente, evocando reminiscências do psicadelismo dos Pink Floyd e do neoclassicismo progressivo dos Eloy.
Por último, o tema-título e pièce de résistance do disco. Atmosphere é uma peça colossal, que ultrapassa os 30 minutos de duração e se subdivide em 8 fragmentos, oscilando entre a expansão cósmica, a solenidade gótica e a hipnose caleidoscópica. Imensa e ambiciosa, sem nunca resvalar para a banalidade e a redundância, esta composição pode muito bem representar o fim de uma era. Os anos 80 despontavam e a música electrónica começava a descer à Terra, preocupando-se mais com a dança dos corpos humanos, em detrimento da dança dos corpos celestes.
Adelbert von Deyen continuou a produzir discos até ao século XXI - faleceu em 2018 -, progressivamente contaminados pelas tendências do presente e sem a audácia sonhadora do passado. Atmosphere ficará registada, muito provavelmente, como a sua obra de referência.

7 de fevereiro de 2020

Memories Are Made of Hits


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Em Chapter and Verse, o quase sempre cordato e discreto Bernard Sumner coloca, pela primeira vez, as suas memórias em hasta pública. O guitarrista dos Joy Division e voz principal dos New Order mergulha no passado para contar a sua história e a história em torno de duas das maiores e mais influentes bandas de sempre. A questão que se coloca é: seria necessária mais uma narrativa acerca deste tema? A resposta é: se forem todas como esta, claro que sim.
Existe sempre um ponto de vista diferente para cada história e o de Bernard Sumner é particularmente cativante, conseguindo absorver-nos constantemente no relato de eventos que já se tornaram lendários.
Da infância nos subúrbios de Manchester à formação dos Joy Division, do trauma fracturante causado pela morte de Ian Curtis às noites megalómanas da discoteca Haçienda, Sumner dirige-se ao leitor de forma simples e directa, não sendo raras descrições intimistas e episódios anedóticos. Um destes últimos, versando o célebre manager de ambas as bandas, Rob Gretton, merece a devida transcrição: 
"We were invariably late getting to the studio everyday, which was always Rob's fault. You'd try to wake him and, even though he'd asked you to make sure he was up in time, he'd do the same thing to you everytime: his two front teeth were false ones which he'd keep in a glass of water overnight by the side of the bed, and when you'd try to wake him up he'd reach for the glass, take the teeth out and fling the water over you. Every fucking day." Sem dúvida, recordar é viver.
Chapter and Verse privilegia, muitas vezes, a descrição dos artistas em detrimento da arte. Apesar de não faltarem pormenores sumarentos acerca da criação de canções eternas como Love Will Tear Us Apart, Atmosphere, Blue Monday ou Temptation, são os retratos dos criadores que tomam a preponderância. As personalidades, qualidades e defeitos de Tony Wilson, Martin Hannett ou Peter Hook. Os seus egos intermináveis e as suas fragilidades.
O livro termina com a transcrição de uma sessão de hipnose feita por Bernard Sumner a Ian Curtis. E o que fica desse momento resume muito do que este livro revela: tragédia e inocência.


29 de janeiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIII

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Previamente à sua incursão a solo, Michael Hoenig militou em dois dos colectivos mais míticos da música germânica: Agitation Free e Tangerine Dream. Aos primeiros, adicionou às guitarras bluesy e espaciais um manto de electrónica lânguido e hipnótico; nos segundos, contribuiu para alicerçar a estrutura cósmica e melódica adotada em meados de 70 e que nunca mais foi abandonada.
Departure From the Northern Wasteland, primeiro álbum de Hoenig, editado em 1978, acaba por conjugar essas duas facetas numa viagem sonora atmosférica, refinada e envolvente.
O disco abre com o tema-título, uma peça extensa - mais de 20 minutos -, preenchida por sequenciadores em cadência e arpejos sintéticos. O resultado é um longo transe contemplativo, mas nunca soporífero, revestido por uma melodia na veia dos melhores clássicos dos Tangerine Dream. Ideal para mover o cérebro sem mover o corpo.
Hanging Garden Transfer prossegue a travessia, mas acelera a velocidade. A teia melódica adensa-se e torna-se mais pungente e urgente. O corpo é chamado a reagir e é impossível não invocar um passeio por uma qualquer autobahn que atravessa as terras desoladas do Norte mencionadas no título do disco.
A toada muda com a lenta ondulação que percorre Voices of Where, interlúdio minimal ao qual é acrescentado uma voz feminina em tom de abstracção e que resulta como um mantra despojado e dolente. Em contraste, Sun and Moon encerra o álbum de forma elevada e radiosa. Uma melodia luminescente e uma baforada de liberdade percorrem a peça. Como o regresso ansiado a um sítio do qual já sentíamos saudades.
Departure From the Northern Wasteland é considerado um dos melhores exemplos da escola berlinense de electrónica, possuidor de um papel preponderante na evolução do género e na sua gentrificação. Embora sintamos o futuro projectar-se nos meandros das suas paisagens electrónicas, acaba igualmente por ser uma obra vincadamente emocional e intemporal, à qual se retorna pelo prazer da nostalgia.

4 de janeiro de 2020

2019: A Soundtrack




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Pelos vistos, os loucos anos 20 do século XXI apenas começam no ano que vem. Assim sendo, a exigível história concisa dos melhores discos da década de 10 para o Escrito no Som apenas será compilada nessa altura, de forma a cumprir o rigor científico.
2019 foi um ano sabático para esta página. Um período de mudança e reflexão, mas não de desistência. Um período de aceitação. A música acompanhou o passar dos meses, dos dias, das horas. Como antídoto para a dor. Como anestésico para a realidade e como fonte de força para a encarar.
Ghosteen de Nick Cave e os seus recatados, mas intensos, Bad Seeds foi o disco que definiu o meu ano. Elegíaco, pungente e catártico, mais ainda que o seu desolado antecessor - The Skeleton Tree -, exige coragem e abertura emocional para o ouvir e aceitar de empreitada.
2019 foi pleno de estados de graça musicais e foi fantástico constatar que uma elevada percentagem dos discos que compõem as escolhas anuais deste escriba são da autoria de mulheres. Talvez porque este mundo precisa, actualmente e mais que tudo, de um colo materno. Segue abaixo a lista da música que mais me embalou, inquietou e despertou no ano da conquista do 37º título de campeão nacional de futebol por parte do Sport Lisboa e Benfica.



1. Nick Cave and the Bad Seeds - Ghosteen

2. Weyes Blood - Titanic Rising

3. FKA Twigs - Magdalene

4. Lana Del Rey - Norman Fucking Rockwell!

5. The Comet Is Coming - Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery

6. Purple Mountains - Purple Mountains

7. Tyler, the Creator - Igor

8. Fontaines D.C. - Dogrel

9. Bill Callahan - Shepherd in a Sheepskin Vest

10. Angel Olsen - All Mirrors

11. Solange - When I Get Home

12. Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

13. Billie Eilish - When We Fall Asleep, Where Do We Go?

14. Big Thief - U.F.O.F./Two Hands

15. Vampire Weekend - Father of the Bride

16. 75 Dollar Bill - I Was Real

17. Thom Yorke - ANIMA

18. Richard Dawson - 2020

19. Brittany Howard - Jaime

20. Kim Gordon - No Home Record

21. Little Simz - Grey Area

22. black midi - schlagenheim

23. The Murder Capital - When I Have Fears

24. Aldous Harding - Designer

25. Bon Iver - i,i

26. Joan Shelley - Like the River Loves the Sea

27. Modern Nature - How To Live

28. James Blake - Assume Form

29. Fennesz - Agora

30. Helado Negro - This is How You Smile

31. Wilco - Ode to Joy

32. Julia Jacklin - Crushing

33. Michael Kiwanuka - Kiwanuka

34. Fat White Family - Serfs Up!

35. Sunn O))) - Life Metal

36. Jamila Woods - LEGACY! LEGACY!

37. Iggy Pop - Free

38. Jenny Hval - The Practice of Love

39. Beth Gibbons & The Polish National Radio Symphony Orchestra - Henryk Gorécki: Symphony No. 3 (Symphony of Sorrowful Songs)

40. Cate Le Bon - Reward

41. slowthai - Nothing Great About Britain

42. Matana Roberts - COIN COIN Chapter Four: Memphis

43. Bruce Springsteen - Western Stars

44. Lingua Ignota - Caligula

45. Klein - Lifetime

46. Angel Bat Dawid - The Oracle

47. Moor Mother - Analog Fluids of Sonic Black Holes

48. Dave - Psychodrama

49. Carl Stone - Himalaya/Baroo

50. The National - I Am Easy to Find


31 de dezembro de 2018

2018: A Soundtrack

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Eis que chega ao fim o turbulento 2018. Contudo, o mesmo não traz o fim de Trump, Brexit, Gillets Jaunes e outras peculiaridades mais ou menos extremas que o marcaram. À medida que o tempo avança, a inocência dissipa-se. O optimismo transforma-se em cepticismo, o pessimismo em realismo. 2018 foi um ano de notícias terríveis, mas também de alternativas. A esperança teima em persistir. Em quê? Só o tempo o dirá.
Nestes tempos bipolares, a música não escapou ao zeitgeist. Exemplo disso é o disco que considerei eleger como o melhor do ano. O seu título acaba por resumir a atitude necessária para enfrentar os tempos presentes: Joy as an Act of Resistance. Um disco crú, duro e visceral, que nos confronta com a fragilidade da existência e com as disfunções da sociedade contemporânea. Além dos seus mentores, os britânicos Idles, mais foram os nomes que exploraram o lado mais sombrio da actualidade, cuja herança do Post-Punk é flagrante. Shame, Preoccupations ou Daughters recuperaram igualmente - e de forma brilhante e inovadora - esta corrente musical.
Merecem igualmente destaque veteranos como os Low e os Spiritualized, que, nesta fase da sua carreira, continuam ainda a desbravar novos territórios e a demonstrar capacidades criativas notáveis. Sons of Kemet e Kamasi Washington assinaram discos excelentes, que elevaram a fasquia do Jazz, ao mesmo tempo que o aproximaram da vanguarda das novas correntes musicais. Obras que constituem uma prova marcante que este género, mais que nunca, está longe do esquecimento.
A música que mais me marcou em 2018 assentou numa saudável e costumeira miscelânea. Segue abaixo a lista que me ajudou a enfrentar cada dia.



1. Idles - Joy as an Act of Resistance

2. Low - Double Negative

3. Sons of Kemet - Your Queen is a Reptile

4. Janelle Monáe - Dirty Computer

5. Mitski - Be the Cowboy

6. Tirzah - Devotion

7. Kamasi Washington - Heaven and Earth

8. Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel & Casino

9. Spiritualized - And Nothing Hurt

10. Khruangbin - Con Todo El Mondo

11. Rolling Blackouts Coastal Fever - Hope Downs

12. Preoccupations - New Material

13. Shame - Songs of Praise

14. Daughters - You Won't Get What You Want

15. Father John Misty - God's Favourite Customer

16. Kacey Musgraves - Golden Hour

17. The 1975 - A Brief Inquiry Into Online Relationships

18. U.S. Girls - In a Poem Unlimited

19. Christine and the Queens - Chris

20. Beach House - 7

21. Ryley Walker - Deafman Glance

22. Robyn - Honey

23. Blood Orange - Negro Swan

24. Julia Holter - Aviary

25. Rosalía - El Mal Querer

26. Parquet Courts - Wide Awake!

27. Hookworms - Microshift

28. Amen Dunes - Freedom

29. Tim Hecker - Konoyo

30. ZULI - Terminal

31. Young Fathers - Cocoa Sugar

32. SOPHIE - OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES

33. Iceage - Beyondless

34. Let's Eat Grandma - I'm All Ears

35. Pusha T - Daytona

36. John Hopkins - Singularity

37. Deafheaven - Ordinary Corrupt Human Love

38. Yves Tumor - Safe in the Hands of Love

39. Yo La Tengo - There's a Riot Going On

40. Anna Calvi - Hunter

41. Beak> - >>>

42. Car Seat Headrest - Twin Fantasy

43. Stephen Malkmus and The Jicks - Sparkle Hard

44. Sleep - The Sciences

45. Marianne Faithfull - Negative Capability

46. Nils Frahm - All Melody

47. Courtney Barnett - Tell Me How You Really Feel

48. Gazelle Twin - Pastoral

49. Cat Power - Wanderer

50. Suede - The Blue Hour

A Marca Amarela X

Related imageTal como Debon dos Brast Burn, dissecado no post anterior, Alomoni 1985 é igualmente uma obra solitária. Desta feita, conjurada pelos não menos obscuros Karuna Khyal. Além do ano de edição - 1976 - e do facto de ser um produto nipónico, o que sobra deste projecto é um perfeito mistério. Persiste a teoria que ambos os discos provêm do mesmo cérebro (colectivo?), sendo que a música criada pelos Karuna Khyal consegue alcançar níveis de transgressão e delírio ainda maiores que os do seu suposto alter ego.
Alomoni 1985 é igualmente composto por duas extensas peças, onde o experimentalismo reina sem rei nem roque. A primeira assenta num cruzamento não muito improvável - e quiçá apetecível - entre a vertigem improvisada dos Faust e os Blues escangalhados de Captain Beefheart. Uma vocalização repetitiva, acompanhada de harmónica e levada ao colo por uma turba deambulante e cacofónica de instrumentos eléctricos em densa distorção despenha-se num abismo escuro e demencial, onde a música parece presa numa teia, debatendo-se para sair, mas confortável nas suas sedosas amarras.
A segunda parte do álbum tem o mérito de ser ainda mais radical. As experiências desbragadas e intoxicadas dos Faust continuam a ser a comparação mais óbvia, mas aqui o pontual humor dos germânicos transfigura-se numa interminável bad trip, numa marcha ritualista em círculos, cadenciada e repetitiva, cuja espiral se adensa até ao abrupto corte final. A matéria-prima ainda assenta no Rock e nos Blues, mas ambos resvalaram para o precipício da loucura e vagueiam, alienados, por labirintos que não conduzem à razão. Material pesado e para psicadélicos de barba rija.
O único trabalho dos Karuna Khyal constitui, acima de tudo, um artefacto raro e curioso. Descrever a música que guarda é como relatar um estranho sonho, do qual só recordamos as partes mais bizarras. Não se trata forçosamente de um pesadelo, mas as forças e substâncias em torno de uma obra tão extrema revelam mentes em estado de entropia profunda. A escutar com ouvidos bem abertos, em ambiente seguro, escuro e solitário.

29 de dezembro de 2018

A Marca Amarela IX

Image result for brast burnDebon, datado de 1975, é a única pegada musical deixada pelo obscuro colectivo japonês baptizado como Brast Burn.
Objecto de culto há muito considerado perdido, o álbum tem sido alvo de pontuais e recentes reedições, sem que as próprias editoras responsáveis (nomeadamente a Paradigm e a Phoenix) tenham conhecimento dos criadores da obra, agradecendo, inclusive, a prestação de informações adicionais a quem saiba quem são e de onde vêm os Brast Burn.
Supostamente criada por estudantes de arte nipónicos, a música de Debon inscreve-se na corrente mais limítrofe e surreal do psicadelismo, aproximando o grupo do experimentalismo free form das franjas mais radicais do Krautrock que dos territórios melódicos e espaciais da maioria dos seus contemporâneos e conterrâneos sinfónicos e tradicionalmente progressivos da década de 70.
Composto exclusivamente por dois longos e expansivos temas, o álbum franqueia portas a um mundo de mistérios e maravilhas a quem demonstre abertura mental para neles penetrar e vaguear. A base instrumental é, essencialmente, acústica, assentando em guitarra, percussão, harmónica, flauta e sinos. Pontualmente, a electricidade de uma guitarra em regime fuzz invade a atmosfera, bem como vozes que alternam entre mantras repetitivos, cujas palavras são insondáveis, a fraseados isolados e derivativos de Damo Suzuki. As ambiências hipnóticas e, por vezes, atonais, remetem igualmente para a densidade meditativa e mística da música tibetana. Não obstante, as melodias surgem, fluídas e envolventes, capturando o ouvinte na sua teia e enredando-o numa doce letargia enquanto o convidam a explorar os cantos mais recônditos da sua consciência.
O termo trance folk poderia perfeitamente ser atribuído a estes incógnitos magos sonoros. A toada tribalista, ritualista e lisérgica parece resumir os momentos mais herméticos e narcóticos dos Faust, Popol Vuh ou Dom. É música nua, livre e imaginativa. Tão afastada do conceito musical presente, que soa mais vanguardista que anacrónica. E bela, estranha e incrivelmente bela.