31 de dezembro de 2018

2018: A Soundtrack

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Eis que chega ao fim o turbulento 2018. Contudo, o mesmo não traz o fim de Trump, Brexit, Gillets Jaunes e outras peculiaridades mais ou menos extremas que o marcaram. À medida que o tempo avança, a inocência dissipa-se. O optimismo transforma-se em cepticismo, o pessimismo em realismo. 2018 foi um ano de notícias terríveis, mas também de alternativas. A esperança teima em persistir. Em quê? Só o tempo o dirá.
Nestes tempos bipolares, a música não escapou ao zeitgeist. Exemplo disso é o disco que considerei eleger como o melhor do ano. O seu título acaba por resumir a atitude necessária para enfrentar os tempos presentes: Joy as an Act of Resistance. Um disco crú, duro e visceral, que nos confronta com a fragilidade da existência e com as disfunções da sociedade contemporânea. Além dos seus mentores, os britânicos Idles, mais foram os nomes que exploraram o lado mais sombrio da actualidade, cuja herança do Post-Punk é flagrante. Shame, Preoccupations ou Daughters recuperaram igualmente - e de forma brilhante e inovadora - esta corrente musical.
Merecem igualmente destaque veteranos como os Low e os Spiritualized, que, nesta fase da sua carreira, continuam ainda a desbravar novos territórios e a demonstrar capacidades criativas notáveis. Sons of Kemet e Kamasi Washington assinaram discos excelentes, que elevaram a fasquia do Jazz, ao mesmo tempo que o aproximaram da vanguarda das novas correntes musicais. Obras que constituem uma prova marcante que este género, mais que nunca, está longe do esquecimento.
A música que mais me marcou em 2018 assentou numa saudável e costumeira miscelânea. Segue abaixo a lista que me ajudou a enfrentar cada dia.



1. Idles - Joy as an Act of Resistance

2. Low - Double Negative

3. Sons of Kemet - Your Queen is a Reptile

4. Janelle Monáe - Dirty Computer

5. Mitski - Be the Cowboy

6. Tirzah - Devotion

7. Kamasi Washington - Heaven and Earth

8. Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel & Casino

9. Spiritualized - And Nothing Hurt

10. Khruangbin - Con Todo El Mondo

11. Rolling Blackouts Coastal Fever - Hope Downs

12. Preoccupations - New Material

13. Shame - Songs of Praise

14. Daughters - You Won't Get What You Want

15. Father John Misty - God's Favourite Customer

16. Kacey Musgraves - Golden Hour

17. The 1975 - A Brief Inquiry Into Online Relationships

18. U.S. Girls - In a Poem Unlimited

19. Christine and the Queens - Chris

20. Beach House - 7

21. Ryley Walker - Deafman Glance

22. Robyn - Honey

23. Blood Orange - Negro Swan

24. Julia Holter - Aviary

25. Rosalía - El Mal Querer

26. Parquet Courts - Wide Awake!

27. Hookworms - Microshift

28. Amen Dunes - Freedom

29. Tim Hecker - Konoyo

30. ZULI - Terminal

31. Young Fathers - Cocoa Sugar

32. SOPHIE - OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES

33. Iceage - Beyondless

34. Let's Eat Grandma - I'm All Ears

35. Pusha T - Daytona

36. John Hopkins - Singularity

37. Deafheaven - Ordinary Corrupt Human Love

38. Yves Tumor - Safe in the Hands of Love

39. Yo La Tengo - There's a Riot Going On

40. Anna Calvi - Hunter

41. Beak> - >>>

42. Car Seat Headrest - Twin Fantasy

43. Stephen Malkmus and The Jicks - Sparkle Hard

44. Sleep - The Sciences

45. Marianne Faithfull - Negative Capability

46. Nils Frahm - All Melody

47. Courtney Barnett - Tell Me How You Really Feel

48. Gazelle Twin - Pastoral

49. Cat Power - Wanderer

50. Suede - The Blue Hour

A Marca Amarela X

Related imageTal como Debon dos Brast Burn, dissecado no post anterior, Alomoni 1985 é igualmente uma obra solitária. Desta feita, conjurada pelos não menos obscuros Karuna Khyal. Além do ano de edição - 1976 - e do facto de ser um produto nipónico, o que sobra deste projecto é um perfeito mistério. Persiste a teoria que ambos os discos provêm do mesmo cérebro (colectivo?), sendo que a música criada pelos Karuna Khyal consegue alcançar níveis de transgressão e delírio ainda maiores que os do seu suposto alter ego.
Alomoni 1985 é igualmente composto por duas extensas peças, onde o experimentalismo reina sem rei nem roque. A primeira assenta num cruzamento não muito improvável - e quiçá apetecível - entre a vertigem improvisada dos Faust e os Blues escangalhados de Captain Beefheart. Uma vocalização repetitiva, acompanhada de harmónica e levada ao colo por uma turba deambulante e cacofónica de instrumentos eléctricos em densa distorção despenha-se num abismo escuro e demencial, onde a música parece presa numa teia, debatendo-se para sair, mas confortável nas suas sedosas amarras.
A segunda parte do álbum tem o mérito de ser ainda mais radical. As experiências desbragadas e intoxicadas dos Faust continuam a ser a comparação mais óbvia, mas aqui o pontual humor dos germânicos transfigura-se numa interminável bad trip, numa marcha ritualista em círculos, cadenciada e repetitiva, cuja espiral se adensa até ao abrupto corte final. A matéria-prima ainda assenta no Rock e nos Blues, mas ambos resvalaram para o precipício da loucura e vagueiam, alienados, por labirintos que não conduzem à razão. Material pesado e para psicadélicos de barba rija.
O único trabalho dos Karuna Khyal constitui, acima de tudo, um artefacto raro e curioso. Descrever a música que guarda é como relatar um estranho sonho, do qual só recordamos as partes mais bizarras. Não se trata forçosamente de um pesadelo, mas as forças e substâncias em torno de uma obra tão extrema revelam mentes em estado de entropia profunda. A escutar com ouvidos bem abertos, em ambiente seguro, escuro e solitário.

29 de dezembro de 2018

A Marca Amarela IX

Image result for brast burnDebon, datado de 1975, é a única pegada musical deixada pelo obscuro colectivo japonês baptizado como Brast Burn.
Objecto de culto há muito considerado perdido, o álbum tem sido alvo de pontuais e recentes reedições, sem que as próprias editoras responsáveis (nomeadamente a Paradigm e a Phoenix) tenham conhecimento dos criadores da obra, agradecendo, inclusive, a prestação de informações adicionais a quem saiba quem são e de onde vêm os Brast Burn.
Supostamente criada por estudantes de arte nipónicos, a música de Debon inscreve-se na corrente mais limítrofe e surreal do psicadelismo, aproximando o grupo do experimentalismo free form das franjas mais radicais do Krautrock que dos territórios melódicos e espaciais da maioria dos seus contemporâneos e conterrâneos sinfónicos e tradicionalmente progressivos da década de 70.
Composto exclusivamente por dois longos e expansivos temas, o álbum franqueia portas a um mundo de mistérios e maravilhas a quem demonstre abertura mental para neles penetrar e vaguear. A base instrumental é, essencialmente, acústica, assentando em guitarra, percussão, harmónica, flauta e sinos. Pontualmente, a electricidade de uma guitarra em regime fuzz invade a atmosfera, bem como vozes que alternam entre mantras repetitivos, cujas palavras são insondáveis, a fraseados isolados e derivativos de Damo Suzuki. As ambiências hipnóticas e, por vezes, atonais, remetem igualmente para a densidade meditativa e mística da música tibetana. Não obstante, as melodias surgem, fluídas e envolventes, capturando o ouvinte na sua teia e enredando-o numa doce letargia enquanto o convidam a explorar os cantos mais recônditos da sua consciência.
O termo trance folk poderia perfeitamente ser atribuído a estes incógnitos magos sonoros. A toada tribalista, ritualista e lisérgica parece resumir os momentos mais herméticos e narcóticos dos Faust, Popol Vuh ou Dom. É música nua, livre e imaginativa. Tão afastada do conceito musical presente, que soa mais vanguardista que anacrónica. E bela, estranha e incrivelmente bela.

Pós-Fabricado




Originalmente editado em 1986 e intitulado From Joy Division to New Order: The True Story of Anthony H Wilson and Factory Records, o livro em torno da mítica e defunta editora discográfica britânica foi alvo de revisão e actualização em 2009, diminuindo o palavroso título para o exibido na imagem acima.
Mick Middles, o autor, é um reconhecido jornalista e especialista na cena musical de Manchester e autor de inúmeras obras em torno do seu legado, iniciado no Punk até ao presente. O estilo informado e minucioso da sua prosa revela um conhecimento profundo da história da lendária editora, sem menosprezar os aspectos mais folclóricos e os episódios mais anedóticos que ajudaram à perpetuação do seu nome.
Nascida sob a égide circunspecta dos Joy Division e amadurecida pela qualidade inventiva dos New Order, a Factory acabaria por definhar envolta na aura de hedonismo da Haçienda - a  sua discoteca privada - e no clímax dos conterrâneos Happy Mondays e da Madchester. Tony Wilson, o homem por detrás da lenda, tornar-se-ia ele próprio uma figura icónica e admirada, assistindo à disseminação das sementes da sua editora por todo o mundo e à emulação da música primordialmente criada pelos seus artistas.
Factory: The Story of the Record Label é um documento imprescindível para conhecer e entender o trajecto mercurial da editora que, muito mais que lançar discos, criou uma imagem própria e imortal, pedra basilar para um estilo de vida que, ainda hoje, fabrica embriões urbanos, tão pessimistas como hedonistas.

15 de dezembro de 2018

Riffestival

Related imageA New Wave of British Heavy Metal constitui um fenómeno peculiar e interessante. Surgido nos finais dos anos 70, em plena ressaca do Punk e do despontar da New Wave, o movimento manteve a infraestrutura pesada e entorpecente dos Black Sabbath e Led Zeppelin, acrescentando-lhe a energia efeverescente do Punk. Sendo que os catedráticos Motörhead jogaram o ás de espadas deste baralho, outras bandas mais ou menos entusiasmantes se lhes juntaram, entre as quais os Diamond Head.
O que distinguiu este quarteto oriundo de Stourbridge dos seus pares, especialmente no seu primeiro álbum, assentou numa inebriante mescla de composições complexas, melodias invasivas, ritmos vertiginosos, produção em bruto e, especialmente, na feérica e endiabrada guitarra de Brian Tatler.
O nome da banda inspirou-se no primeiro disco a solo de Phil Manzanera, guitarrista dos Roxy Music, e o que se escuta em Lightning To The Nations é um verdadeiro diamante por lapidar, tresandando a cabedal, tabaco e cerveja, rodopiando em velocidade e volume proibitivos numa cave funda a altas horas da noite.
Extrapolando, Lightning To The Nations poderia ser a versão pesada de Marquee Moon dos Television. As composições, na sua maioria extensas, rendilhadas e caleidoscópicas, inflectem para um idêntico banho de imersão quente no Rock. Mas, enquanto a banda nova-iorquina explora as guitarras como objecto sedutor e pensante, os britânicos enveredam para territórios virtuosos e ardentes. A guitarra de Tom Verlaine é amor romântico, a de Brian Tatler amor carnal. Ambos são fabulosos e distintos exemplos de como tratar as seis cordas como trave-mestra da canção.
Ouvido à distância de 38 anos, Lightning To The Nations não traz nada de novo. Mas revela a majestade dos clássicos. Composto por apenas sete composições, todas originais, a riqueza que guarda é notável. O tema-título abre as hostilidades com pompa, circunstância e violência. Um ataque cerrado e sem tréguas, sucedido pelo assombroso The Prince, uma mistura entre a velocidade cega dos Motörhead e o instinto melódico dos Iron Maiden, que resulta numa alucinante montanha-russa rítmica guiada por uma guitarra sem freio. A voz de Sean Harris acaba por ser o elemento mais clássico da banda, algures entre Robert Plant e Geddy Lee.
Ainda mal refeitos dos efeitos desta erupção vulcânica, surge o monstruoso Sucking My Love, momento em que o ouvinte é definitivamente sugado para a garganta incandescente dos Diamond Head. Dez minutos de groove obnubilante, acompanhado de uma tareia de guitarra de ouvir e chorar por mais. Dez minutos que lançaram prolíferas sementes no metal dos anos vindouros. É impossível não vislumbar no riff de guitarra final desta canção laivos do que viria a ser Seek & Destroy dos Metallica, sendo que o primeiro álbum dos norte-americanos - Kill'em All - bebe muito destas águas. Aliás, os reis do Thrash Metal nunca esconderam a influência dos Diamond Head, tendo, inclusive, gravado versões de dois temas de Lightning To The Nations, o que ajudou à evolução do culto em torno desta obra ao longo dos anos. Foram eles Am I Evil e Helpless, peças imensas e intensas - a primeira derivativa do universo ocultista dos Black Sabbath (curioso como as tendências passam de geração em geração), a segunda assente numa abordagem mais explícita ao Punk.
Merece especial realce a reedição do álbum editada em 2011, a qual contém um segundo disco de material nunca reunido em disco anteriormente e que oferece um excelente complemento aos primeiros anos de existência dos Diamond Head.
Infelizmente, a banda britânica nunca mais conseguiu repetir a qualidade extraordinária de Lightning To The Nations, resvalando progressivamente para a obscuridade, apesar de ainda manter a actividade. Esta primeira obra, justamente considerada um marco pioneiro na credibilização do Metal nas suas várias vertentes, deverá ser considerada, acima de tudo, uma peça fulcral na evolução do xadrez primordial do Rock. PLAY IT LOUD!

29 de novembro de 2018

La Vie en Roseland

Portishead - Roseland New York



Roseland NYC Live foi já considerado um dos melhores álbuns ao vivo de sempre, feito estranho e discutível, tendo em conta a recatada e discreta banda que o assinou, os britânicos Portishead, bem como o estilo musical que praticam.  Contudo, a história toma outro rumo perante o contraponto visual do concerto registado em 1997 num velho salão de baile nova-iorquino. 
Roseland New York, filme-concerto realizado por Dick Carruthers, revela os Portishead num registo nú e crú, sem artifícios, luzes ou sombras além da atmosfera esparsa do local onde tocam, perante os olhares próximos do público e acompanhados por um conjunto de cordas intitulado apenas - e enigmaticamente - The Orchestra.
O contraste entre o trip-hop jazzístico com laivos de film noir praticado pelo grupo e a exposição da sala que alberga a música permite uma ilusória sensação de intimidade, no qual o narcótico embalo sonoro embate na rigidez permanente da luminosidade e da performance artística sem subterfúgios.
Os maneirismos vocais a la Billie Holiday de Beth Gibbons, a guitarra western spaghetti em território urbano de Adrian Utley e a teia sonora de teclas, ritmos e samples construída por Geoff Barrow florescem de forma hipnótica e encantatória em Roseland New York. Trata-se de um objecto único e precioso relicário para entender a música da década de 90 e de um dos seus colectivos mais geniais e influentes. Como esquecer ou não querer regressar ao abandono melancólico misturado com negrume sensual de Roads, All Mine, Glory Box ou Over? Esperemos que o sucessor de Third não demore mais dez anos a ver a luz da noite.



              

25 de novembro de 2018

Bowie Now



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The Age of Bowie é, acima de tudo, uma biografia escrita por um admirador e seguidor. O seu autor é Paul Morley, eminente comentador artístico britânico e membro dos Art of Noise nas horas vagas (ou vice-versa). Erigida nos dias que se seguiram ao falecimento de David Bowie, a obra constitui um tour de force reactivo à perda de uma figura inimitável e insubstituível da cultura dos últimos 50 anos.
Num registo urgente, quase em regime stream of consciousness, muitas vezes verboso, mas sempre exaltado e apaixonado, Paul Morley constrói a sua visão histórica de Bowie, explorando como o artista emergiu, criou, estruturou, exibiu as suas ideias e envelheceu, à medida que revolucionou a música popular e inventou o futuro, tornando-se, ainda em vida, um mito.
O livro percorre os momentos mais marcantes da vida e da carreira do Camaleão, com óbvio e interessante destaque para a década de 70, definitivamente a mais assombrosa e marcante do ponto de vista criativo, sendo cada ano objecto de inspirada e emotiva dissecação.
Da viagem pelas influências e colaborações ao culminar da sua própria influência, de Space Oddity a BlackstarThe Age of Bowie é uma obra escrita por um fã confesso, que poderia ser qualquer um de nós. Certamente cada um escreveria a história de tão enorme figura apelando maioritariamente às razões do coração que da mente. Paul Morley segue o mesmo caminho, mostrando como a descoberta de David Bowie mudou a sua vida, a inspirou, a moldou, voltando a mudá-la com a sua morte. Em suma, sente o que todos sentimos, e expressa-o à sua maneira. Este é o Bowie de Morley, único mas caleidoscópico, que nos lembrará sempre o nosso.

24 de novembro de 2018

From Russia With Love

Aquando da entrada da voz em Northern Seaside, é impossível não fantasiar que Ian Curtis está vivo. E que reuniu um grupo de músicos russos em Rostov-on-Don para perpetuar a sua melancolia cinzenta e crónica. Todavia, à medida que o tema se espraia, a voz é envolvida por uma candura instrumental, cuja luminosidade coloca o desespero em segundo plano e deixa-o à espreita no escuro, por uma porta entreaberta. A voz é de Vladislav Parshin, a banda dá pelo nome de Motorama e este é Alps, o seu primeiro longa-duração.
Editado em 2010, o álbum é uma curiosa e interessante manifestação da música actual feita na Rússia, sendo que, para ouvidos incautos, passaria bem por um produto artístico britânico ou norte-americano.
A influência dos Joy Division é mais que notória, nomeadamente ao nível da já referida voz, mas igualmente das estruturas rítmicas bateria-baixo, que invocam constantemente o apelo à dança maquinal e descarnada de Morris-Hook. Contudo, o duo de guitarras formado pelo igualmente vocalista Vladislav Parshin e por Maxim Polivanov transporta as composições além do negrume pessimista do post-punk - corrente musical que constitui a raíz da banda - e torna-as mais expansivas, algures entre os Interpol menos austeros e o neo-psicadelismo outonal dos Church da década de 80.
A prova deste chiaroscuro está patente nos dois melhores temas do disco. Warm Eyelids é irresistível, imbuído da adolescência em crise do melhor indie rock, trespassado por guitarras afiadas e certeiras, ritmo frenético e urgência romântica. Wind In Her Hair é uma brisa melancólica, conduzida por guitarras cristalinas e oníricas, como uns Byrds renascidos nas praias do Mar Negro.
O que fica dos restantes temas de Alps é um trabalho de uniforme consistência e extrema meticulosidade, onde as guitarras seduzem e as melodias arrebatam sem tréguas. Fica sempre a ideia que já ouvimos isto nalgum lado, do andamento agridoce do tema-título ao cativante embalo de Empty Bed. Porém, a frescura da entrega e a qualidade composicional fazem-nos sentir aconchegados como na chegada a uma casa que sempre conhecemos mas nunca visitámos. O imaginário dos Motorama é um filme a preto e branco com algumas cenas pintadas a cores. Impele-nos à dança, impele-nos à introspecção, impele-nos a ambas em simultâneo. Em 2018, assinaram o seu quinto álbum, Many Nights. A fórmula criativa tem sido mantida, sem grandes alterações a registar. Os Motorama não conquistarão o mundo, mas parecem contentes em conquistar os corações de eternos adolescentes, que vagueiam, melancólicos, debaixo do Sol.

10 de novembro de 2018

A Marca Amarela VIII


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No final da audição do álbum homónimo (e única obra gravada em estúdio) dos japoneses Shingetsu, é impossível não perguntar "porquê só isto?"
Este disco de 1979 constitui, não apenas uma das obras mais marcantes do rock progressivo nipónico, mas de todo o universo do género. Pese embora não enveredar pelos caminhos mais experimentais e vanguardistas dos Van der Graaf Generator ou dos King Crimson, o colectivo liderado pelo vocalista Makoto Kitayama, Shingetsu guarda um relicário de belas e transcendentes melodias, em constante estado de mutação. Mais próximo do apogeu criativo dos Genesis (não é à toa que Makoto Kitayama é alcunhado de Peter Gabriel japonês), o disco exibe igualmente um certo exotismo oriental barroco em termos instrumentais, que o afasta das convenções e o transforma num objecto singular e numa autêntica delícia para os ouvidos.
Oni e Return of the Night, peças que abrem e fecham o álbum - e que, em última instância, se complementam - são possuídas por uma complexa e cristalina melancolia, acentuada pela voz etérea de Makoto Kitayama. A primeira é a verdadeira obra-prima e trave-mestra de Shingetsu, espraiando-se ao longo de quase dez minutos como uma onda de luz e sombras num intermitente e deleitoso duelo entre a guitarra sinuosa de Harukiko Tsuda e as teclas assertivas de Akira Hanamoto. Uma viagem levitante e cósmica, tão envolvente quanto estimulante, e que, sabiamente, é recuperada no final do disco para encerrar um círculo perfeito com uma guitarra em estado de graça.
The Other Side of Morning poderia ter sido um single arrojado, uma canção magnífica, que, mesmo sem refrão, emana luminosidade da sua doce melodia folk e da vocalização perfeita, como um lento nascer do Sol, cujo calor nos persegue o corpo à medida que cresce no céu. Influential Street inflecte igualmente por territórios mais exuberantes e harmoniosos, num cativante exercício que poderia ser apelidado glam prog.
A estética mais elaborada retorna em Afternoon (After the Rain), que acrescenta um oportuno saxofone à excelente base melódica, e prolonga-se em Fragments of the Dawn, peça de toada mais contemplativa, mas movida pela incessante criatividade e mestria instrumental da banda.
Após um breve e estranhamente ominoso interlúdio intitulado Freeze, surge Night Collector, que carrega no acelerador do rock sem nunca abandonar a estrada meândrica do prog, debitando inflexões rítmicas e melódicas com assombrosa destreza.
Em português, Shingetsu significa lua nova. A fase em que a Lua se encontra entre a Terra e o Sol. Não é visível a olho nú, mas sabemos que lá está. É igualmente bom saber que, não obstante os Shingetsu já não existirem, este belíssimo legado continua ao nosso alcance, para perpétuo encanto e deleite.

28 de dezembro de 2017

2017: A Soundtrack

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Mais um ano que termina, mais uma volta na Geringonça, que sacou da cartola um presidente do Eurogrupo. Num país ardido e traumatizado, valeu a chama imensa do Sport Lisboa e Benfica, que conquistou um inédito tetracampeonato. Lá fora, nostalgias da Guerra Fria no Paralelo 38 e um presidente norte-americano cujo cabelo muda de cor. Uma mistura que não augura nada de bom.
A música, essa, foi sempre a mesma. Mas também foi outra. Os LCD Soundsystem causaram polémica com um regresso prematuro, mas provaram que James Murphy nunca devia ter desistido da ideia. American Dream é a prova concludente que o projecto nova-iorquino continua a ser uma das máquinas musicais mais interessantes, pertinentes e influentes do século XXI. De saudar igualmente o regresso em belíssima forma dos seminais Slowdive, cujo álbum homónimo constituiu uma das surpresas mais sólidas e agradáveis do ano discográfico. Os National deram um golpe de rins e lançaram-se a mares nunca dantes navegados. O sétimo álbum do grupo é a mais exigente e experimental das suas obras, mas igualmente a mais entranhável e recompensadora. Björk continua a produzir sons que não parecem ser deste mundo, motivo pelo qual os nossos corações devem regozijar-se. Kendrick Lamar assinou um dos melhores discos de Rap que há memória, um trabalho assombroso, ao qual é impossível ficar indiferente e que torna o género ainda mais transversal.
2017 foi, assim, um ano de muita, variada e inspirada oferta musical. A lista que se segue foi a que mais me acompanhou e inspirou.



1. LCD Soundsystem - American Dream

2. The National - Sleep Well Beast

3. Kendrick Lamar - DAMN.

4. The War on Drugs - A Deeper Understanding

5. Slowdive - Slowdive

6. Mount Eerie - A Crow Looked At Me

7. St. Vincent - Masseduction

8. Björk - Utopia

9. Lorde - Melodrama

10. SZA - CTRL
  
11. Fever Ray - Plunge
       
12. Arca - Arca

13. Jlin - Black Origami

14. Perfume Genius - No Shape

15. Father John Misty - Pure Comedy

16. Richard Dawson - Peasant

17. Kelela - Take Me Apart

18. Vince Staples - Big Fish Theory

19. King Krule - The OOZ

20. Thundercat - Drunk

21. Brand New - Science Fiction

22. Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

23. The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

24. Sampha - Process

25. Ibeyi - Ash

26. Big Thief - Capacity

27. Moses Sumney - Aromanticism

28. Chino Amobi - Paradiso

29. Juana Molina - Halo

30. The XX - I See You

31. Kaitlyn Aurelia Smith - The Kid

32. Protomartyr - Relatives In Descent

33. Actress - AZD

34. Jane Weaver - Modern Kosmology

35. Robert Plant - Carry Fire

36. Laurel Halo - Dust

37. Fleet Foxes - Crack-Up

38. Alvvays - Antisocialites

39. Queens of the Stone Age - Villains

40. Do Make Say Think - Stubborn Persistent Illusions

41. Circuit des Yeux - Reaching For Indigo

42. Laura Marling - Semper Femina

43. Grizzly Bear - Painted Ruins
   
44. Ariel Pink - Dedicated To Bobby Jameson

45. Four Tet - New Energy

46. Wolf Alice - Visions Of A Life     
    
47. Sharon Jones & The Dap-Kings - Soul Of A Woman   
       
48. Andrew Weatherall - Qualia

49. Arcade Fire  - Everything Now
      
50. The Weather Station - The Weather Station

24 de dezembro de 2017

Lone Folk


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F.J. McMahon (O é de Fred) editou apenas um álbum durante a sua breve carreira. Um disco com menos de 30 minutos de duração, gravado em apenas 36 horas, mas que se tornou uma pérola obscura da folk moderna norte-americana.
Spirit of the Golden Juice foi composto e editado em 1969, na ressaca da experiência de McMahon na guerra do Vietname. Pese embora ser uma primeira obra, o disco revela uma maturidade criativa e uma profundidade lírica cuja ressonância se mantém intacta e capaz de afectar os corações mais empedrenidos.
São, sobretudo, canções de guerra e canções de amor. Do que foi visto e sentido em terras do Oriente, do regresso a casa, do fim dos idealismos da juventude, de forçados recomeços.
A omnipresente guitarra acústica do cantor é maioritariamente acompanhada por um baixo e uma bateria, esparsos e discretos, deixando os temas fluir numa cadência constante e dolente, envolvente mas não soporífera. Tendo em conta as vivências de F.J. McMahon, não é de estranhar o apelo e o desejo de paz que transpira do primeiro tema, Sister, Brother e que nos conquista de imediato pela bela melodia e a sinceridade da entrega.
Seguem-se mais oito canções, pungentes e superlativas na sua qualidade e simplicidade. Por vezes McMahon remete-nos para um Nick Drake nascido na Califórnia, para as ruminações solitárias de Fred Neil, ou para um Arthur Lee em regime ascético. Todavia, as suas composições são únicas e possuem um crivo de experiência pessoal que as torna realmente genuínas.
É difícil destacar algum tema em particular ao longo da audição de Spirit of the Golden Juice, sendo que todos eles reflectem experiências profundamente pessoais. O belíssimo Early Blue entranha-se imediato, na sua cálida e luminosa melancolia. A poética Black Night Woman conta a história de um amor impossível em tempo de guerra. A poeirenta The Road Back Home remete-nos para o contraste entre a imensidão solitária do deserto e a alienação de cidades hiperpopuladas. O tema-título inspira-se no bourbon bebido pelos soldados no Vietname para relatar o ambiente alucinado vivido na iminência da ameaça constante.
Ao contrário do que McMahon esperava, apesar do louvor da crítica, Spirit of the Golden Juice não teve o sucesso comercial esperado. Tal desapontamento, associado à mudança do paradigma musical no início dos anos 70, levou a que o cantor abandonasse a sua musa em definitivo. Nas palavras do próprio, glitter glam rock came in and I'm looking at this on TV thinking, uh I think my time is done.
É impossível não ficar algo sedento face ao que F.J. McMahon poderia ter continuado a criar musicalmente. A sua única obra deixa intuir que muito ficou por cantar, ao mesmo tempo que o consagra com um dos artistas de culto mais notórios da sua era.

23 de dezembro de 2017

Kosmische Kosmetik LII


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Em 1976, o krautrock evidenciava um declínio no seu florescimento. A maior parte dos nomes que catapultaram o estilo para o seu acme criativo encontravam-se extintos ou atravessavam fases de menor lampejo artístico e inspiração.
Todavia, à margem dos nomes que ajudaram à expansão da vertente mais vanguardista e arrojada do rock alemão, certos grupos e individualidades entendiam ter ainda algo a acrescentar a um lote artístico já digno de destaque na música mais original e influente do século XX.
Günter Schickert, Axel Struck e Michael Leske eram três desses idealistas/inconformados, que decidiram reavivar a velha chama e continuar a espalhar brasas pela música germânica. Com a inicial de cada um dos seus nomes selaram o projecto que os tornou num dos mais radicais nomes de culto do género: GAM.
O primeiro dos dois álbuns editados pelo grupo - simplesmente intitulado 1976 - é uma obra endiabrada e extrema. Criada a partir de três improvisações em estúdio, consegue ir mais além das excursões lisérgicas, espaciais e hipnóticas encetadas por Ash Ra Tempel ou Guru Guru, a título de exemplo.
O primeiro tema, GAM Jam, abate-se sobre o ouvinte como uma borrasca sem tréguas, arrastando-o para a dimensão paralela onde se desenrola, sem esperanças de regresso. Seja qual for a substância que inspirou o trio, a qualidade não deixa margem para dúvidas...
Apricot Brandy deixa para trás a toada ciclónica e deambula por caminhos sombrios e labirínticos. O ritmo é opressivo, a guitarra tensa, a voz paranóica. A produção rude e artesanal torna o tema ainda mais agressivo, mas há algo que nos puxa e nos impele a continuar a desbravar estas cavernosas galerias.
Für Elise und Alice é a queda final no abismo demencial que se escancarou perante nós logo ao princípio. O que começa por ser uma desconstrução perversa da clássica peça para piano de Beethoven evolui para um devaneio rock fora de órbita que os Cosmic Jokers não desdenhariam. Fustigante e fascinante, a peça apodera-se do ouvinte sem misericórdia e o som crú e pouco polido acentua a veracidade e a intencionalidade do monstro que se faz ouvir.
1976 não é um disco exemplificativo do lado mais congregacional do krautrock, nem sequer da qualidade técnica ou melódica da música germânica. É preferível assumi-lo e consumi-lo como um retorno ao seu inconsciente primordial, pagão e puro.