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1 de março de 2016

Filme Ambiente



Brian Eno é universalmente conhecido como o criador da música ambiente. Todavia, Mistaken Memories of Mediaeval Manhattan, obra visual datada de 1981, pode igualmente atribuir-lhe o epíteto de inventor do filme ambiente. Nada de realmente novo, pois Andy Warhol tinha já experimentado anteriormente com os efeitos das imagens estáticas e hipnóticas. Todavia, esta criação do multifacetado artista britânico revela uma frescura que perdura.
Gravada ininterruptamente durante 4 dias, a peça incide sobre as variações e mutações elementares dos céus de Manhattan, observadas a partir da janela de Eno. Na medida em que as câmaras portáteis eram um artefacto relativamente recente na época, o mesmo não dispunha de um suporte para efectuar a captação de imagens na forma correcta, pelo que o dispositivo foi mantido em posição horizontal. O resultado acabou por se revelar mais um dos muitos felizes acasos que polvilham a mente criadora de Brian Eno. Uma obra de arte visual, de imagens primárias e saturadas, cuja premissa assenta na colocação do écran onde é exibida na vertical, para que as formas tomem a sua posição natural. Ou não, se o espectador preferir manter o discreto surrealismo que emana da peça. Arte involuntária e instantânea, mas genial e pertinente, ao melhor estilo deste regente futurista.


                                   

6 de fevereiro de 2012

Enologia


Brian Eno é um dos nomes mais consensuais e influentes no espectro musical dos últimos 40 anos. E o mais pitoresco é que o britânico nunca foi um músico. Descrever a vida de uma personagem tão intrigante e fascinante não é tarefa fácil, mas foi o propósito a que David Sheppard se lançou em On Some Faraway Beach: The Life and Times of Brian Eno.
Obra cujo título nomeia uma das mais belas e expansivas criações de Eno, presente no seu disco de estreia, Here Comes The Warm Jets, este tomo constitui uma leitura interessante e um poderoso retrato de uma existência lendária. Aparece-nos recheado de histórias que todo o melómano instruído conhece mas nunca se cansa de relembrar, assim como de peripécias e pormenores sumarentos mas ocultos para a maioria dos seus seguidores. Rica em detalhes e abrangente no percurso narrado, On Some Faraway Beach é uma biografia pessoal e artística mais que recomendável e que honra em absoluto o génio extraordinário de Brian Eno.

30 de julho de 2011

African Night Flight

Imagine-se uma noite em que a escuridão subjuga e o calor entorpece. Uma noite em que é impossível dormir, mas em que os movimentos do corpo são forçados a minima. Uma noite opiácea, em que os espíritos vagueiam sonambulamente fora dos corpos e os sentidos não distinguem luzes reais de sombras irreais. Fourth World, Vol. 1: Possible Musics, colaboração entre o trompetista de vanguarda Jon Hassell e o mestre das ambiências Brian Eno é música em transe profundo, um delírio hipnótico e fantasmagórico. Parece conjurar danças tribais perdidas no tempo, ecos de ritos passados que regressam, possessos. Seduz-nos a segui-lo a paragens onde mortos e vivos se encontram. Onde o visionário e o arcano coabitam.
Este ritual mágico e soberbo estende-se ao longo de seis temas, praticamente indistinguíveis entre si, mas subtilmente impregnados de nuances e atmosferas que agem sobre o ouvinte como magia negra. O bruxo supremo é, naturalmente, o distinto trompete trabalhado de Jon Hassell. Os sons que derrama parece não pertencerem a este mundo e irrigam a música como uma espécie de om meditativo. Como pano de fundo, residem as texturas de Brian Eno. Emergem as paisagens oníricas de monolitos como Another Green World e a abstracção contemplativa das suas tríades com Roedelius e Moebius.
O termo Fourth World significava, para Hassell, a junção entre o vanguardismo musical e diferentes culturas e eras. Uma miríade de possibilidades, que assistem este disco em pleno e que reflectem África como um espelho negro. Delta Rain Dream recupera os tambores reais do Burundi, em regime processional e introvertido. Ritualística, Griot (Over 'Contagious Magic') faz das palmas ritmo e Rising Thermal 14° 16' N; 32° 28' E deixa-nos sós perante a claustrofobia da imensidão. Hassell vai fazendo o trompete carpir como uma alma penada ou uivar como um animal selvagem.
A metade mais forte do álbum começa no primeiro tema, Chemistry. A química entre os intervenientes mostra-se, desde logo, perfeita. Trompete sussurrante, um baixo com Parkinson e o percurssionista brasileiro Naná Vasconcelos a acariciar as congas. Ba-Benzélé coloca um Hassell em loop intermitente (inebriante) e outro em desdobramento. Ouvem-se trovões à distância e o ritmo dança seduzindo o céu com a promessa de chuva. Eno mantém-se em segundo plano, adicionando sintetizadores e efeitos, dando tempero. Ambos deixam o melhor para o fim. Charm (Over 'Burundi Cloud') é a peça que define este disco magistral. Durando mais de 20 minutos (o que correspondia a todo o lado B do vinil original), é daqueles temas em que vale a pena ter nascido para poder experienciá-lo. Está lá tudo o que melhor define as artes de Hassell e Eno. O trompete parece um ser vivo, que não só comunica com a nossa alma, como nos toca fisicamente. As electrónicas giram em espirais contínuas e tudo se repete, uma vez, outra vez, até que o solo deixa de existir e estamos a voar lentamente pela noite infinita. Lá em baixo, flora negra, águas paradas, fogo que se eleva mas não nos consegue alcançar. O ritmo conduz-nos, continente acima, até terras do Magrebe, até sabe-se lá onde, porque há coisas das Arábias...
Fourth World, Vol. 1: Possible Musics assumiu-se como uma obra embrionária no que viria a ser o multiculturalismo musical, especialmente na música electrónica e de dança. Uma obra que é mais Hassell que Eno, mas cuja existência seria impossível se os dois não tivessem marcado encontro e traçado o mesmo destino.

14 de janeiro de 2011

Harmonia Mundi


A discografia dos alemães Harmonia é feita de duas obras seminais, uma parceria inspirada e um álbum de culto gravado ao vivo. Muitas vezes, e com alguma sensatez, definidos como o supergrupo do krautrock, este trio é um dos pilares mais sólidos da sustentação deste género nos idos anos 70. Michael Rother (dos Neu!) congregou-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius (os Cluster) na Alemanha rural, desenvolvendo um estúdio e reunindo material sonoro. A primeira exposição criativa do grupo data de 1974 e intitula-se Musik von Harmonia. É notória a convergência entre as esparsas e abstractas paisagens ambientais dos Cluster e os ritmos mecânicos e deambulantes dos Neu!. No seu todo, o disco é uma experiência sensorial soberba e desafiante, construída em torno de electrónica arcaica e à base de uma economia de meios que o transforma num objecto ainda mais charmoso e intrigante. A música diverge, faixa após faixa, entre o minimalismo hipnótico (Watussi, Sonnenschein), o vácuo ambiental (Sehr Kosmisch, Ohrwurm) e o robótico motorik (Dino, Veterano). Ahoi! é um devaneio beatífico em órbita lunar e a profética Hausmusik encerra o circuito em toada de música de câmara cibernética. Extremamente vanguardista, criativo e visionário para a época, Musik von Harmonia deve ser entendido como um facho que ilumina de forma ténue, mas perene, os desenvolvimentos electrónicos mais inteligentes que estavam para vir.


À boa maneira germânica, para suceder a uma obra-prima, nada como fabricar outra. No absolutamente fabuloso Deluxe, editado em 1975, perfeccionismo e disciplina não faltam. Mas, em relação ao seu antecessor, a música é mais ampla, mais bombástica, o som enche-se de luz e ofusca-nos com a intensidade do seu brilho. Para além de ser um dos melhores temas de sempre da kosmische musik, a peça que abre o disco - Deluxe (Immer Wieder) - é um rasgo de génio e uma espiral interminável de energia melódica. Uma fonte de alegria inesgotável! Walky-Talky prossegue o deslumbramento, ao longo de uma marcha circular, faseada pela guitarra em cascata e pela electrónica subversiva. Desta feita transformados em quarteto, os Harmonia demonstram muito bem neste tema que a inclusão do baterista Mani Neumeier (dos Guru Guru) foi mais que acertada. O senhor é um aristocrata do ritmo. Segue-se novo golpe de génio com a viagem alucinante de Monza (Rauf und Runter). É o tema mais enérgico da história da banda, um cruzamento entre o proto-punk e a compulsão motorik, muito ao estilo do que se encontra em Neu!75. Apetece pegar no carro e acelerar vertiginosamente numa estrada deserta, rumo a nada...
Notre Dame pára para recuperar o fôlego e fá-lo em torno de sintetizadores etéreos e ritmos que apenas roçam a pele. Gollum, excelente como tudo até aqui, desbrava território mais denso e sombrio, num tenso e sincopado avanço, talvez fixado no Anel que o domina (convém lembrar que esta gente era muito apreciadora do imaginário de Tolkien...). E, no final, chega Kekse, melodia de embalar, cristalina e intra-uterina. O som definha lentamente, até imperar um estranho silêncio que parece prometer mais qualquer coisa, mas que nada devolve. Mais um disco que ninguém ouviu na altura devida, mas que continua a ser uma fonte de prazer e descoberta para quem o conhece hoje.


O olho de falcão de Brian Eno não deixou de capturar a inventividade e o brilhantismo do projecto alemão. Eno chegou até a nomear os Harmonia the world's most important rock band em meados dos anos 70. A admiração e a cumplicidade artística culminaram num álbum em colaboração. O mesmo é conhecido como Tracks and Traces, data de 1976 e é, naturalmente, soberbo. Importa aqui realçar a reedição que teve lugar em 2009 e que, para além de manter os temas originais, adicionou-lhe mais três extras de fino recorte. Num disco pensado e executado por quatro sumidades da música moderna, a totalidade dos temas é inexcedível. Sobressaem, porventura, a placidez atmosférica e algo nostálgica de Welcome, a planante e contemplativa Almost, ou as longas deambulações meditativas e improvisadas de Sometimes in Autumn e By the Riverside. Mas Weird Dream é um belo pedaço de electrónica cósmica, assim como Les Demoiselles é um momento onírico de electrónica naïf. Luneburg Heat é o único tema vocalizado (por Eno) e estende a passadeira para a estrutura das suas futuras colaborações com Roedelius e Moebius.
O elo quebrou-se após a edição de Tracks & Traces, com cada membro do colectivo a enveredar por outros projectos ou a voltar a territórios familiares. Pontuais colaborações entre eles viriam a surgir, mas nada com o peso e a lenda do nome Harmonia.


Mais de 20 anos depois, e em plena redescoberta dos sons da kosmische musik, vem à tona um álbum perdido, uma gravação ao vivo de 1974. É o som dos Harmonia no seu mais primitivo, vanguardista e cerebral. O disco arrasta-se, sonâmbulo e estático, ao longo de cinco magistrais peças, num balanço perfeito entre melodias espectrais e frias e o puro gozo da experimentação. Realce para a tríade Schaumburg, Veteranissimo e Holta-Polta, que excedem os dez minutos de duração, espraiando-se num serpentear electrónico, rumo a uma lenta e perseverante conquista mental. Ainda e sempre, sons que não são deste mundo, únicos e estranhos como tudo o que ultrapassa as convenções.
Aqui estão quatro discos a ter e a estimar. Quatro obras à parte, detentoras de uma linguagem própria, fora dos parâmetros definidos pelas estéticas anglo-saxónicas e norte-americanas. E, quando a estética é tão sensaborona que tudo parece igual, nada como ouvir o que não se parece com nada...

9 de outubro de 2008

Enofilia

Brian Eno, ou se preferirem o nome completo, Brian Peter George St. John le Baptiste de la Salle Eno, é um génio. Pelo menos para mim. Longe vão os tempos em que este não-músico assumido envergava plumas e lanteloujas e assegurava a estranheza e o experimentalismo sonoro nos Roxy Music. O verdadeiro Man From Mars do início da década de 70...
Desde então, e exceptuando alguns trabalhos bombásticos como produtor (o que seria dos U2 sem ele?), Eno tem-se tornado o maior expoente da "música discreta". Elemento fulcral na procura de novas linguagens e de novas possibilidades musicais, a sua busca tem-no levado nos últimos anos ao conceito de música concebida para computadores - Música Generativa.
Caí na tentação de colocar aqui um ensaio e uma entrevista, ambos do século passado, mas sempre à frente das tendências vigentes, em que Eno disseca o seu trabalho e algumas temáticas pertinentes da música moderna. E este homem sabe sempre muito bem o que diz, ou não fosse ele o autor da célebre citação "Culture is everything that you don't have to do."...