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1 de março de 2021

Home Sweet Home

Os Stooges tomaram de assalto o Rock norte-americano em 1967, dois anos antes do lançamento do seu lendário e seminal álbum homónimo. Em contra-corrente com a onda flower power da época, o quarteto formado por James Osterberg, Dave Alexander e os irmãos Scott e Ron Asheton ganhou notoriedade pelos seus concertos intensos e performances incendiárias. Muito contribuiu para esse (e)feito a presença em palco do vocalista James Osterberg, anteriormente membro dos Iguanas, banda onde adquiriu o nome que o tornou reconhecido universalmente - Iggy Pop.
O primeiro álbum dos Stooges reflectia, acima de tudo, um mal-estar latente na sociedade americana, principalmente da sua juventude. Temas como 1969 ou No Fun evidenciavam a corrosão interna provocada pela guerra do Vietname e o entorpecimento geral na ressaca de uma década extasiante.
A música era urgente, pesada e visceral. Agressiva mas emotiva. Um grito de revolta e chamada de atenção. Justamente, o disco de estreia de Detroit foi apelidado proto-punk, lançando as sementes para a germinação das bandas rebeldes que se seguiram. Depois deste Punk avant la lettre, nada seria como antes na música popular.
Um ano depois, em 1970, os Stooges provaram não ser uma banda cuja fórmula se esgotou num poderoso e irrepreensível álbum de estreia. O retorno com Fun House é o pináculo da carreira do grupo, um disco genialmente dilacerante, onde a crueza anterior se torna refinada através de uma produção de estúdio certeira, que capta na perfeição o som vívido da banda e que atinge todos os pontos nevrálgicos.
Down on the Street abre o pano com um Blues gingão que se metamorfoseia em Rock duro, delapidado pela guitarra incisiva de Ron Asheton. Tal como o propulsivo 1970, cuja secção rítmica em transe permite à guitarra rasgar seda como uma adaga.
Os gloriosamente caóticos e intensos Loose e T.V. Eye arrastam o ouvinte para um abandono eléctrico, difícil de recuperar e ao qual apetece sempre regressar e dançar até ao esquecimento. Ainda hoje existem dúvidas se Iggy Pop chegou ao fim de T.V. Eye com a laringe inteira...
Dirt é o único momento de relativa calmaria no turbilhão violento de Fun House. Mas igualmente o mais sombrio. Lenta descida por uma espiral sleazy e narcótica, alcança o mesmo nível de pungência e catarse dos restantes temas.
O tema-título coloca na linha da frente o saxofone feérico de Steve Mackay, músico cujos préstimos garantem um travo ainda mais nocturno e urbano a um disco que tresanda a claustrofobia metropolitana. O cunho jazzístico de Fun House é elevado ao extremo na peça que encerra o álbum. L.A. Blues deixa para trás toda a esperança e sorve-nos para um abismo cacofónico e catatónico, em que Rock e Jazz esgrimem argumentos em furioso improviso. 
Mais de 50 anos após a edição de Fun House, é impossível não ficar impressionado e esmagado pela sua ferocidade e intensidade. Além de ser a obra-prima dos Stooges, é um dos melhores discos de Rock de todos os tempos. Muitos tentaram imitar a sua magia negra e fulgurante. Nenhum deles conseguiu.

28 de agosto de 2012

Miose Pop

O Idiota, celebérrimo livro de Dostoiévski, narra a história do benevolente príncipe Liev Míchkin. Este, após regressar à cidade de São Petesburgo vindo de um sanatório, depara-se com tamanha corrupção e perversidade humanas que conclui ser melhor viver num sanatório que no mundo real. The Idiot, disco de Iggy Pop, inspirou-se livremente nesta premissa.
Foi David Bowie que resgatou James Osterberg do seu próprio sanatório circa 1976. O final dos Stooges e o tsunami de excessos associados à banda deixou o seu vocalista à beira do colapso e a entregar-se voluntariamente nos braços de uma instituição psiquiátrica. The Idiot, editado no ano seguinte, resulta das experiências revitalizantes levadas a cabo em conluio com o Camaleão.
É o disco mais atípico assinado por Iggy Pop, mas é também a sua obra mais profunda e fascinante. Longe do rock propulsivo e visceral dos Stooges, The Idiot habita no reino das sombras e movimenta-se pela calada da noite em regime de autofagia introspectiva. Com os seus rasgos de electrónica e produção paludosa, o álbum desliza qual fantasma de sobrolho carregado pela noite monocromática e desolada da urbe. A urbe é Berlim, desfigurada pelo quelóide de cimento que a divide em duas, escura como breu, friamente romântica. E narcótica.
Sister Midnight, exercício assente numa guitarra funky futurista e groove obstinado, empurra desejos reprimidos para a noite faminta e fecha a porta atrás deles. Robótica, Nightclubbing faz uma vénia ao krautrock enquanto penetra, lânguida, pelas decadentes caves berlinenses. Imaginamos Pop e Bowie, esquálidos, vampirescos, intoxicadamente ausentes, a vaguear entre os comuns mortais.
Funtime desce mais fundo na escadaria gótica e prolonga o devaneio kraut, com a vertigem repetida do seu ritmo a la Neu!. I'm gonna get stoned and hang around, canta Pop com pragmatismo e sem falsos pudores, lembrando-nos que Berlim era o lar europeu da heroína no final dos anos 70 e que ele e Bowie eram inquilinos curiosos...
Baby é uma tensa estação que passa, frenética, para dar lugar a China Girl. Hit massivo para Bowie anos mais tarde, apresenta-se aqui pouco polida e produzida, uma canção de amor que irrompe a altas horas da noite, quando a mente ainda sofre os frémitos de uma noite excessiva e o corpo procura um consolo que não vem.
Lenta e arrastada, Dum Dum Boys é uma nostálgica e, ao mesmo tempo, corrosiva excursão aos despojos dos Stooges. Tiny Girls é uma espécie de soul futurista e plastificada e que elucida de sobremaneira quando Iggy definiu The Idiot como um cruzamento entre James Brown e Kraftwerk. E o grand finale fica entregue a Mass Production, literalmente uma massiva e esmagadora orgia narcótica, num martelanço crescente e doentio que espicaça a mente. Delicioso...
David Bowie terá sido o grande beneficiado em toda esta história. The Idiot parece, muitas vezes, um laboratório de ensaio para as suas experiências futuras (nomeadamente a sua fase berlinense), sendo Iggy Pop a cobaia. Alguns dos temas foram recuperados posteriormente por Bowie e este tipo de sonoridade ficará sempre mais associado ao Camaleão que à Iguana. Mesmo assim, este é o disco sério de Iggy e, porque não dizê-lo, a sua obra mais marcante apesar de não o definir. O Idiota foi apresentado a outro mundo, mas logo se refugiou naquele onde sempre se sentiu mais confortável...

12 de março de 2009

Monsieur Pop


Há uns dias, ao folhear a mui interessante e influente revista Jazz Times, deparei-me com a notícia que Iggy Pop iria lançar um novo álbum, impregnado de francofonia. Uma publicação dedicada maioritariamente ao Jazz não seria o sítio onde esperava encontrar tal notícia, mas o próprio James Osterberg define a obra como “not a rock album, more jazzy stuff … it’s a quieter album with some jazz overtones.” Vindo da voz dos seminais Stooges e do autor de obras tão bombasticamente roqueiras como American Ceasar ou Skull Ring, isto não deixa de surpreender. Mas o que é certo é que tons mais densos e circunspectos sempre povoaram a obra de Iggy, desde o injustamente ignorado Avenue B, passando pelo urgente e urbano Lust For Life e pelas odes dolentes, decadentes e nocturnas do magistral The Idiot. Com saída prevista para Maio, e como admirador profundo das diatribes deste senhor, aguardo ansiosamente por Préliminaires. Em http://www.iggypoppreliminaires.com/ assistimos a uma breve explicação para o leitmotiv que rodeou a obra em assunto e que apresentará Iggy Pop ao mundo a cantar em francês...