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7 de maio de 2011

Garage Days IV

The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators é um dos álbuns mais influentes da história do rock. Colocado na bebida dos E.U.A. no longínquo ano de 1966, foi uma das primeiras obras (e obras-primas) a acidificar a música da nação. Roky Erickson, o líder do bando, é ainda hoje visto por muitos como o pai do rock psicadélico. Para além do inequívoco génio musical, Erickson possui uma história de vida no mínimo exótica, o que resultou numa aura mítica e na sua transformação em personagem de culto. Diagnosticado com esquizofrenia paranóide nos finais dos anos 60, o abuso de substâncias que alteram a consciência não ajudou, e o músico passou temporadas entre a prisão e o hospital psiquiátrico. Actualmente vive dias mais pacatos (domesticados?), havendo um período em que chegou a afirmar que o seu corpo era habitado por um marciano, o que motivava a sua perseguição pelos humanos...
Mas concentremo-nos em The Psychedelic Sounds (...). O que transparece logo à primeira audição é um disco feito por uma banda de garagem. O som é crú, directo, composto por melodias fortes mas sem rodriguinhos. É a entrega desses elementos que faz toda a diferença e que coloca a música num patamar lisérgico. Erickson é intoxicante durante todo o registo e a sua voz parece partir-se em estilhaços, tal como o seu estado mental. A guitarra de Steve Sutherland é a base do disco, serpenteando por cavernas de blues sombrios e redondilhos de rock hipnótico. O som mais distinto do disco terá de ser o amplified jug de Tommy Hall: um jarro feito de cerâmica, que o músico coloca perto da boca sem nunca tocar com os lábios. Os movimentos bucais e a voz fazem o resto. O efeito é mais ou menos como se a nossa cabeça fosse feita de vidro e tivesse um enxame de abelhas lá preso. E a sensação de estranheza e loucura instala-se.
Este clássico dos 13th Floor Elevators é um delicatessen psicadélico do princípio ao fim. Já foi reeditado em várias ocasiões, mas os 11 temas da edição original chegam e sobram para o culto. O poder e o génio de You Don't Know (How Young You Are), Reverberation, Rollercoaster, I've Seen Your Face Before (Splash 1) e You're Gonna Miss Me permanece intacto e flamejante após décadas. Sem estes texanos nunca teriam existido instituições como Screamadelica dos Primal Scream, The Jesus & Mary Chain ou os verdadeiros herdeiros da banda, os fabulosos e inesquecíveis Spacemen 3. Entretanto, o disco acabou. Acho que vou ouvi-lo outra vez...

3 de abril de 2011

Garage Days III

"Their name is Love but they are Hate." Esta expressão foi usada para definir os Love, uma das bandas mais geniais de sempre, que fundiu elementos de garagem, psicadelismo e barroquismo pop como mais ninguém. Os Belle & Sebastian não existiriam sem eles, assim como o reverenciado primeiro disco dos Stone Roses e Michael Head teria sido mais um post-punker inconsequente em vez de criar os belíssimos Pale Fountains / Shack. O colectivo que nos levou a um passeio pela perfeição no intocável Forever Changes brotou de poderosas ervas daninhas e começou por florescer num álbum homónimo do tipo bikini: curto, atraente e que focou os pontos essenciais.
Love, editado em 1966, é um disco que cruza o imediatismo e a urgência do Garage Rock com a sensibilidade da melodia e a arquitectura da canção concisa e perfeita. O malogrado Arthur Lee, eterno símbolo desta entidade, projecta já a sua mente torturada em temas agridoces, de sol enganador e sombras ominosas. O ódio dos Love sente-se nas palavras que repercutem o Vietname, as drogas pesadas ou a inutilidade do emergente sonho hippie. A música crava as unhas em elementos que vão da folk ao que agora é politicamente correcto chamar proto-punk (e que mais não era que raiva latente).
My Little Red Book transforma a temática pinga-amor do original de Burt Bacharach em sátira política, graças à compatibilidade com o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e à carga eléctrica que lhe é inflingida. Signed D.C. é uma sombria incursão pela câmara escura da heroína, homenagem ao falecido ex-baterista Don Conka. O quarto é escuro e frio, mas há um prazer algo voyeurista em ficar à porta a contemplá-lo, pois a canção é memorável. E a memória mais propensa a néctares musicais nunca poderá descurar peças intrépidas como A Message to Pretty, Softly to Me ou You'll Be Following. Can't Explain e o ataque de nervos à clássica murder ballad Hey Joe apresentam-se menos polidas e mais garagistas na entrega.
Tudo é sangue na guelra neste disco, o prenúncio de mágicas, mas tortuosas, glórias futuras. Arthur Lee e o seu clã olham-nos de frente na capa de Love, rodeados de pedra e vegetação em seu redor. O local era a antiga casa de Bela Lugosi, onde o grupo viveu em comunhão os seus primeiros anos. Os olhares parecem dizer que, tal como a melhor encarnação de Drácula, esperam pacientemente para nos sugar o sangue. E nós, sofregamente, oferecemos o pescoço...

27 de março de 2011

Garage Days II

Os Monks são uma das bandas mais lendárias e proeminentes do chamado Garage Rock. Com apenas um álbum na sua cartilha, datado de 1966, espalharam culto e influência. O punk não teria acontecido sem eles e os ritmos mecanizados do krautrock também lhes devem a sua quota-parte. Tudo começou na Alemanha em meados dos anos 60, quando cinco militares americanos aí em serviço trocaram as espingardas pelas guitarras. Os cabelos foram cortados ao melhor estilo monástico, batinas começaram a ser envergadas e muitas vezes o quinteto tocava com cordas à volta do pescoço. A música era manifestamente anti-bélica, mas o som era rude e a entrega electrizante. Em Black Monk Time, o seu único testemunho, os Monks deram o seu contributo para a mudança da face do rock. Tornaram-na mais feia e agressiva, crua e desmaquilhada. 
Black Monk Time é um disco imparável. Nem as canções de amor acalmam a intensidade constante. A banda parece tocar música com o sentimento de quem disputa uma batalha. Rigorosos e concisos, os Monks mostram ser uma máquina precisa de tocar rock'n'roll. O que não significa que não haja espaço para emoções. Elas estão à flor da pele, febris e directas e deixam-nos sem fôlego enquanto os monges se entregam à penitência do ritmo. Monk Time é das melhores aberturas de sempre de um disco. Um ataque relâmpago, surpreendente e panfletário. O que lhe sucede é um conjunto variado de experiências roqueiras como nunca se tinha ouvido e que soam poderosíssimas ainda hoje. Todos os membros da banda cantam, a bateria nunca se liberta de um transe endemoniado e o órgão de igreja que assalta os temas é tudo menos litúrgico. Há ainda um banjo eléctrico que arranha melodias de barba rija.
A fúria dos Monks encerra 12 temas em menos de meia-hora. Black Monk Time tem sido alvo de reedições ao longo dos anos, mas nenhum dos extras por elas oferecidos chega ao nível da primeira dúzia. Assim, deixem marchar sobre vós os fantásticos Shut Up I Hate You. E deixem-se evangelizar pela espiral frenética de Higgle-Dy-Piggle-Dy e Blast Off! No fim, não há como perguntar onde está a energia das bandas de hoje em dia. Onde está a fúria? Se rock em português significa pedra, então Black Monk Time é a sua pedra filosofal. Para mais informações, é favor visitar o Mosteiro...

13 de março de 2011

Garage Days

Há algo de puro e libertador no rock de garagem dos anos 60. Algo de genuíno, virginal até. Antecâmara do punk, caminho de cabras para o psicadelismo, muito do Garage Rock continua a soar tão fresco hoje como há quatro décadas atrás. Tudo graças a artistas e obras que primavam pela irreverência e pelo imediatismo, por jogarem mais com o coração que com a cabeça. O som era crú e primário. Não elaborava as emoções, entregava-as em bruto. Como se o caldeirão efeverescente e hormonalmente instável de uma mente adolescente fosse traduzido musicalmente.
São óbvias as referências dos blues e da forma como eles foram tratados pelos Rolling Stones no primeiro álbum - homónimo - dos Electric Prunes. A música é carnal e sensitiva. No entanto, há algo de transcendente e profano que transforma esta obra primogénita num dos embriões do psicadelismo. I Had Too Much Too To Dream (Last Night) e Get Me To The World On Time são dois clássicos intocáveis, duas das melhores canções dos sixties. A primeira é um clássico absoluto, a placenta do psicadelismo, omnipresente nas compilações do género e absolutamente genial, com uma fuzz guitar a zunir e outra a ecoar como violinos atrás da urgência da voz. A segunda é um exercício pulsante e intenso, um rush emergente e contagiante, de guitarras picadas, voz em lunático crescendo e ritmo sudoríparo.
Construído a propos destes colossais singles, The Electric Prunes apresenta muito mais que complementos às suas duas referências. Destaca-se, aliás, por ser um álbum bastante eclético e que percorre paisagens sonoras variadas, do típico rock de garagem de Try Me on For Size e Are You Lovin' Me More (But Enjoying It Less) ao vaudeville de About a Quarter to Nine e ao psicadelismo polvilhado de jazz do excelente Train For Tomorrow. Sold to the Highest Bidder acelera as guitarras até parecermos estar perante um adulterado agrupamento folclórico grego e não ficaria deslocado num disco dos Beirut ou A Hawk and a Hacksaw. A balada Onie merece idêntico destaque e constitui o momento mais delicado do disco, um sentido monumento ao amor na fase do Clearasil.
Após uma carreira algo errática, os Electric Prunes ainda perduram, essencialmente como banda de concertos, mas este primeiro assomo de 1967 é a sua criação de referência. Um disco que parece ter bebido da fonte da eterna juventude e ideal para satisfazer jovens de espírito.

24 de outubro de 2009

Mr. Mojo Risin'

Desde há muito que as publicações musicais decidem acompanhar as suas edições de CD's gratuitos. Algumas não precisam, como a esmiuçante Record Collector; algumas fazem-no esporadicamente mas muito bem, como é o caso da Wire; outras fazem-no sistematicamente, como é o caso da Uncut ou da Mojo. A primeira já viu melhores dias neste campo, sendo que, há sensivelmente 8 ou 10 anos muitos adquiriam o pasquim pelo apêndice auditivo que oferecia. Infelizmente, de há uns anos a esta parte, a Uncut já não proporciona aos seus leitores a audição em primeira mão das obras que critica. Não obstante, continua a ser uma agradável revista musical, principalmente no que concerne à revisitação de bandas e discos mais antigos e na divulgação de nova e muito boa música feita em terras norte-americanas. Assim é também a Mojo, igualmente britânica, igualmente abrangente, igualmente interessada em divulgar certos artistas e determinadas obras de culto. Estas duas revistas constituem uma espécie de Bloco Central das publicações musicais, que se complementam uma à outra, mas que não exigem ser possuídas em conjunto. No entanto, e no que diz respeito a CD's ofertados ao comum melómano, a Mojo poderia ganhar aos pontos, se apresentasse amíude compilações da consistência e da qualidade que hoje decidi recuperar aqui. No relativamente recente mas igualmente remoto mês de Junho de 2003, esta revista ofereceu à borla uma das melhores compilações que alguma vez ouvi dedicada ao rock de garagem, a cena garage, surgida em meados dos anos 60, muito por culpa dos Rolling Stones e da sua aproximação branca e de fatiota aos blues. Instant Garage, como foi denominada, é uma autêntica Bíblia de referências nesta área. Ao contrário de, parafraseando o geriátrico José Saramago, ser um manual de maus costumes, esta Bíblia pura e simplesmente irrradia luz e júbilo sobre o ouvinte. Havendo quem pague (e bem) para adquirir algumas das rarídades de bandas aqui representadas, este disco grátis escancara magistralmente as portas para esta vertente musical tão rica e seminal. Muito do que se ouve nele é verdadeiramente raríssimo de encontrar, nomeadamente bandas como os Artesians ou os Brave New World, que tiveram existências curtas, resumidas a singles e a concertos dentro de portas nos seus E.U.A. natais. Pululam igualmente por aqui actos mais consagrados, mas embebidos no mesmo espírito rebelde, urgente e do it yourself, como os Modern Lovers e os Ramones, ou, em fase embrionária e crua, os Kinks e os Love.
Dos temas mais memoráveis desta colecção, realce para o genial I Had Too Much To Dream (Last Night) dos Electric Prunes, o sombrio e afectado My Daddy Walked In Darkness de Gil Bateman e o docemente doloroso Sometimes You Just Can't Win dos obscuros Mouse & The Traps. Destaque igualmente para o roufenho e primário Again & Again dos Iguanas, banda e bicho cujo baterista, James Osterberg, viria a homenagear na sua carreira a solo ao adoptar o nome Iggy Pop. De resto, que mais podemos dizer perante uma compilação que junta The Nazz (do excêntrico Todd Rundgren), MC5, Sonics e New York Dolls? Mais que um fim em si mesmo, esta colecção deve ser vista como ponto de partida para uma busca exaustiva das inúmeras bandas deste estilo, que lançou as raízes de movimentos marcantes como o punk e outros não tão marcantes como o psychobilly. A partir daqui, é provável e compreensível que se instale uma obsessiva-compulsiva febre de coleccionismo. Se houvesse uma nota a atribuir-lhe seria 18 valores. Se tivessem sido incluídos os 13th Floor Elevators e os Monks, seria justamente um disco merecedor de 20 valores. Gratuito, abrangente, enciclopédico e, acima de tudo, carregado de temas escaldantes, que mais se pode pedir? Se todas as revistas trouxessem discos assim, felizes seriam os humildes melómanos. A agarrar como se não houvesse amanhã, caso a estrela da fortuna brilhe e o encontrarem perdido por aí...


The Nazz - Open My Eyes (1968) por soulpatrol