22 de janeiro de 2017

Rumo ao Cume

Mike Oldfield nunca escapou verdadeiramente ao êxito massivo de Tubular Bells. O disco de estreia do guitarrista britânico - editado em 1973 - foi, simultaneamente, uma benção e uma maldição. Projectou o músico para uma ribalta inesperada aos 20 anos de idade, mas colou-se-lhe como uma sombra para os anos vindouros da sua carreira. As notas de piano iniciais, que começaram por ser usadas no filme The Exorcist, de William Friedkin, tornaram-se a imagem de marca instantânea do músico inglês e a peça constitui um capítulo incontornável da história da música popular do século XX. Oldfield revisitaria mais vezes Tubular Bells ao longo dos anos, editando sequelas em 1992 e 1998 e chegando mesmo, em 2003, a apresentar uma regravação integral da obra. Pode soar a cansativo e desinspirado, mas nunca deixou de ser lucrativo...
Mas voltemos a 1973 e à ressaca do sucesso da primeira experiência a solo de Mike Oldfield. Até esse momento, o músico tinha somente editado um álbum - em 1969 -, pacata aventura pelos meandros da folk, em parceria com a sua irmã Sally Oldfield e intitulado Children of the Sun. O duo adoptou o nome The Sallyangie e esfumou-se tão depressa como surgiu. Oldfield rumou ao rock e acabou por engrossar as fileiras dos Whole World, banda de suporte a Kevin Ayers, em 1970. Contudo, os dotes e prestações do jovem guitarrista, acentuaram-se progressivamente, até se revelarem grandes demais para os limites de um grupo.
Na ressaca de Tubular Bells, o relativamente discreto Oldfield encontrava-se cansado da constante atenção do público e dos media, pelo que enveredou por um período de recolhimento. Nestes casos, é sobejamente conhecido o poder terapêutico da ruralidade. Em frente à casa que o músico encontrou para se refugiar e encontrar, algures na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, erguia-se um monte denominado Hergest Ridge. E foi nesta paisagem campestre, remota e ancestral que uma nova obra-prima foi desenhada. Mais contida e introspectiva, é certo, mas dotada de uma elevação estética incomparável no legado artístico do seu compositor.
Na parafernália constante do rock progressivo da época, Oldfield deu primazia a instrumentos tradicionais como o tin whistle e o bandolim, assim como a uma sóbria mas pungente secção de sopros. A guitarra, essa, seria sempre a rainha, quer em formato acústico ou distorcida pela electricidade.
Editado em 1974, Hergest Ridge divide-se em duas extensas peças, carregadas de atmosferas ancestrais, pastorais e bucólicas. Em última instância, acaba por ser um disco de pendor ambiental, mas cuja beleza ofuscante nos chama constantemente a atenção para a paisagem sonora que nos envolve. Como se o ouvinte fosse convocado para imiscuir-se nela e não apenas para contemplá-la à distância.
A primeira parte do disco ouve-se como se de uma caminhada se tratasse, uma travessia lenta, acidentada e plena de contrastes, rumo ao cume. Soa a música saída da terra, inspirada no verde intocado e na pureza inebriante do ar. A descrição natural high assenta-lhe que nem uma luva.
A segunda parte evoca a chegada ao cume e a contemplação. A melodia que brota nos primeiros minutos será, decerto, a mais bela que Oldfield alguma vez conjurou. Um misto de emocionalidade e retraimento, deslumbramento e introspecção. Impera uma guitarra acústica, à qual se juntam vozes luminosas, como uma solarenga manhã de Inverno. A música é fria, mas reconfortante. Entretanto, o bucolismo cede lugar à feérica intensidade eléctrica e o sol fixa-se no zénite para depois deixar a sua luz esmorecer gradualmente e ceder às texturas serenas e melancólicas que nunca abandonam verdadeiramente a música.
Hergest Ridge é, em suma, um disco de fuga. Um regresso ao conforto do imutável, ao labirinto onde gostamos de entrar e deambular, mas cuja saída conhecemos. Mike Oldfield regressaria ao mundo real e a novas consagrações e Hergest Ridge seria alvo de luxuosa recauchutagem em 2010. Porém, as duas composições do ponto de paragem original e a beleza do seu imaginário continuam a bastar como local ideal para nos refugiarmos e encontrarmos.